A Turquia se consolidou como o principal destino do café brasileiro no Oriente Médio no início de 2026, num momento em que a guerra e a piora da logística na região reduziram o ritmo de parte dos embarques. Entre janeiro e março, o país aumentou suas compras mês a mês e destoou de mercados que perderam fôlego no mesmo período.
O que aconteceu
Dados compilados pelo Cecafé e divulgados pela CNN Brasil mostram que, entre os 15 países considerados no recorte do Oriente Médio, a Turquia foi o maior comprador de café verde do Brasil no primeiro trimestre de 2026. Em janeiro, foram embarcadas 102,7 mil sacas de 60 quilos; em fevereiro, 111,3 mil sacas; e, em março, 157,5 mil sacas. A receita cambial passou de US$ 42,5 milhões para US$ 61,4 milhões no período.
No mesmo levantamento, a CNN informa que o avanço ocorreu enquanto as exportações brasileiras para parte da região perderam tração entre fevereiro e março, em movimento associado à escalada do conflito envolvendo o Irã e ao ambiente mais incerto para rotas e custos de comércio.
Por que a Turquia destoa no mapa regional
O desempenho turco não surgiu do nada. Um estudo do Ministério da Agricultura sobre o mercado local aponta que o consumo de café no país está em expansão, especialmente entre os jovens e nos grandes centros urbanos, com avanço de cafeterias, bebidas geladas e cafés de perfil mais premium. O mesmo documento afirma que o Brasil responde por cerca de 80% dos grãos de café usados pela Turquia, sinal de uma dependência comercial relevante.
Na prática, isso ajuda a explicar por que a Turquia segue comprando mesmo em cenário de instabilidade regional: há demanda doméstica crescente, forte ligação com o café brasileiro e uma indústria local capaz de torrar, moer e redistribuir produto. Em 2023, segundo o mesmo estudo do ministério, o país exportou café torrado para mercados europeus, o que reforça seu papel também como hub regional.
O tamanho desse mercado para o Brasil
Os números mais recentes mostram que a relação comercial já vinha ganhando peso. Segundo relatório mensal do Cecafé, a Turquia fechou 2025 como o 6º maior comprador de café brasileiro no mundo, com 1,555 milhão de sacas, alta de 3,3% sobre 2024. Entre os dez principais destinos do produto brasileiro, foi um dos poucos a ampliar aquisições no ano.
Antes disso, o Oriente Médio já vinha aumentando sua relevância. Outro relatório do Cecafé mostra que o bloco regional importou 3,266 milhões de sacas de café do Brasil em 2024, com alta de 22,1% em relação a 2023. E, de acordo com o Ministério da Agricultura, a Turquia sozinha importou mais de US$ 300 milhões em café brasileiro em 2024.
O que a guerra muda nos embarques
O ponto central não é que o café tenha ficado imune à crise, mas que alguns mercados reagiram melhor do que outros. A própria CNN Brasil relata que países com rotas alternativas, como Turquia, Jordânia e Líbano, conseguiram preservar ou sustentar compras em patamar mais alto, enquanto destinos relevantes da região registraram recuos em volume e valor.
Para o exportador brasileiro, isso importa por dois motivos. O primeiro é comercial: em um momento de queda do volume total exportado pelo Brasil, preservar mercados compradores ajuda a reduzir perdas. O segundo é logístico: quando conflitos encarecem frete, seguro e previsibilidade das rotas, países com maior capacidade de absorção e redistribuição ganham importância estratégica.
O que observar daqui para frente
O cenário ainda é de cautela. O Cecafé informou que o Brasil exportou 8,465 milhões de sacas no primeiro trimestre de 2026, queda de 21,2% ante igual período de 2025. No caso do Oriente Médio, a continuidade das compras vai depender da evolução das tensões regionais, dos custos de transporte e da capacidade de cada país de manter rotas comerciais funcionando.
Por enquanto, a Turquia aparece como o caso mais claro de resiliência: compra mais café brasileiro, sustenta demanda em meio à turbulência e reforça seu papel como principal porta de entrada do grão nacional no Oriente Médio.