A Quaresma de 2026 já mudou o mercado de pescado no Distrito Federal ao elevar a procura por peixes e pressionar os preços, movimento puxado pela tradição religiosa de evitar carne vermelha entre o carnaval e a Semana Santa, período em que 49,74% da população se declara católica, segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF).
Alta na procura acelera vendas e encurta estoques
O aumento de demanda aparece primeiro no ritmo das peixarias e feiras. Na Feira do Guará, por exemplo, comerciantes relatam que as vendas podem crescer até 60% na Quaresma e na Semana Santa, em comparação com outras épocas do ano.
Entre os itens mais buscados estão robalo, pescada amarela, salmão, tilápia e o tradicional bacalhau importado. Também ganham espaço camarão, lula e polvo, usados em receitas como paella.
Para dar conta do fluxo, uma peixaria da feira reforçou a equipe com 15 funcionários temporários e passou a abrir as portas às 4h. A avaliação do gerente Leandro Braga é que o período muda a dinâmica do comércio, com maior lotação e giro mais rápido de mercadorias.
Preços podem subir até a Sexta-feira Santa
Com o consumo aquecido, a expectativa no varejo é de que o preço do pescado tenha alta entre 10% e 15% até a Sexta-feira Santa. A tendência atinge diferentes espécies, mas pesa mais no bacalhau importado, normalmente posicionado entre os itens de maior valor.
Em supermercados do Distrito Federal, o quilo do bacalhau pode custar o dobro da tilápia. Além disso, a projeção é de reajuste ainda mais forte no período: a previsão é de aumento de até 60% nos preços do produto.
Givanildo de Aguiar, porta-voz da Associação de Supermercados de Brasília (Asbra), afirma que a expectativa é de crescimento nas vendas de pescados entre 18% e 25% nas redes. Segundo ele, a estratégia é buscar negociação para evitar que o repasse ao consumidor ocorra de forma abrupta.
Câmbio e custos de produção entram na conta
No caso do bacalhau, a dependência do dólar amplia a sensibilidade do preço final às oscilações cambiais, já que o item vem do exterior — com destaque para a origem na Noruega e em Portugal.
Para além da importação, o setor também sente a pressão de custos como ração, transporte e logística, que acabam se refletindo no balcão e nas gôndolas.
Consumidores mantêm tradição, mas ajustam o carrinho
Mesmo com os reajustes, a tradição segue firme para parte dos consumidores. O aposentado Miguel Maluf, de 75 anos, diz que mantém a prática anual de evitar carne vermelha, mas tenta diversificar com carnes brancas e ovos. Ele relata que pretende comprar tambaqui e que, quando opta pelo bacalhau, costuma limitar a compra a cerca de 300g, concentrando o consumo na Semana Santa.
A aposentada Vânia Vieira, de 76 anos, também relata aumento em relação ao ano anterior e afirma que ainda avalia qual peixe levar, mas não quer deixar a data passar sem a refeição tradicional.
Produção local cresce, com tilápia na liderança
Do lado da oferta, a produção no Distrito Federal tem avançado e a tilápia concentra mais de 90% do volume produzido, seguida por tambaqui, pacu e pintado. Segundo Adalmyr Borges, da Emater-DF, o setor saiu de 2.163 toneladas em 2024 para 2.637 toneladas em 2025, crescimento de 22%.
O planejamento da cadeia busca encaixar o ciclo de engorda, de seis a oito meses, para que a disponibilidade aumente justamente no período de maior procura. Ainda assim, o mercado local pode precisar recorrer a estados vizinhos para suprir a demanda.
Entre o carnaval e a Semana Santa, o período concentra 40% de toda a comercialização anual de pescado no Distrito Federal, o que ajuda a explicar por que a sazonalidade pesa tanto em preços e logística.
O que explica a alta do pescado na Quaresma
Três fatores se destacam:
crescimento do consumo por motivos religiosos;
alta nos custos de produção, como ração e transporte;
dependência do dólar no caso do bacalhau importado.
Cuidados para comprar melhor e evitar prejuízo
Com o mercado mais disputado, valem medidas simples para proteger o bolso e a qualidade do produto:
acompanhar a pesagem do peixe fresco;
verificar se o pescado está bem refrigerado ou coberto com gelo adequado;
evitar balcões congelados superlotados, que dificultam a circulação do ar frio;
não permitir que o gelo seja pesado junto com o peixe;
no bacalhau, checar a procedência e evitar peças com manchas avermelhadas ou pintas escuras;
desconfiar de valores muito abaixo do praticado no mercado.
Em caso de suspeita de irregularidades, o consumidor pode acionar o Procon pelo telefone 151 ou pelo e-mail [email protected].
Tradição que movimenta feiras e supermercados
A Quaresma segue como um dos períodos mais relevantes do ano para peixarias e redes varejistas no Distrito Federal. Ao mesmo tempo em que reforça hábitos culturais e religiosos, a data reordena a cadeia de abastecimento, valoriza a produção local e obriga consumidores a comparar preços e ajustar escolhas — especialmente diante do encarecimento do bacalhau importado.