Os preços da soja no Brasil seguem com sinal de fraqueza neste início de maio. A combinação de safra recorde, oferta concentrada no mercado físico, recuos em Chicago e câmbio menos favorável ao exportador mantém o viés de baixa nas cotações. O movimento não elimina oscilações pontuais, mas, pelos dados mais recentes, a tendência predominante ainda é de pressão sobre a saca no curto prazo.
O que está puxando a soja para baixo
A base do movimento é a oferta. No 7º Levantamento da Conab, divulgado em 14 de abril, a produção brasileira de soja na safra 2025/26 foi estimada em 179,2 milhões de toneladas, novo recorde. Em mercado agrícola, uma colheita tão grande costuma ampliar a disponibilidade imediata do produto e reduzir o poder de reação dos preços, sobretudo no pico de comercialização.
Além disso, o mercado físico brasileiro tem mostrado negociações mais lentas. Em análise publicada em março, a Safras & Mercado informou que os preços recuaram com pouca liquidez, em um ambiente de queda simultânea em Chicago e do dólar. Já no começo de maio, o Canal Rural relatou baixas generalizadas nas praças acompanhadas, associadas justamente à devolução de ganhos externos e ao enfraquecimento da moeda americana frente ao real.
Por que o dólar e Chicago importam tanto
O preço da soja no Brasil não depende só da oferta interna. Ele é formado também pela referência internacional da Bolsa de Chicago e pelo câmbio. Quando os contratos externos caem, a referência global piora. Quando o dólar perde força ante o real, a exportação fica relativamente menos atrativa em reais. A soma dos dois fatores costuma reduzir o espaço para altas no mercado doméstico.
Foi esse o quadro visto nas últimas semanas. Segundo a Safras & Mercado, os contratos da soja em Chicago acumularam perdas relevantes em março. Mais recentemente, o Canal Rural voltou a registrar pressão de baixa ligada à queda do dólar e ao enfraquecimento das cotações externas. Para o produtor, isso significa uma conta mais apertada no momento de travar vendas, especialmente em regiões em que frete e prêmio portuário não compensam a perda na referência internacional.
Exportações seguem fortes, mas não bastam para virar a tendência
Do lado da demanda, há um contraponto importante: o Brasil continua embarcando volumes elevados. Dados da Secretaria de Comércio Exterior, repercutidos pela CNN Brasil, mostram que a exportação de soja até a quarta semana de abril de 2026 subiu 12,5% na média diária em relação a abril do ano passado. Para maio, o line-up levantado pela Safras & Mercado aponta embarques de 14,06 milhões de toneladas.
Esse ritmo ajuda a escoar a safra e evita uma pressão ainda maior sobre os preços internos. Mas, por enquanto, não parece suficiente para inverter o sinal do mercado. O motivo é simples: a oferta disponível continua muito ampla, e a comercialização acontece em um ambiente internacional sem um choque altista claro.
O que pode mudar daqui para frente
No curto prazo, o mercado deve acompanhar três pontos principais:
o comportamento do dólar, que influencia diretamente a paridade de exportação;
as cotações em Chicago, sensíveis ao clima e ao plantio nos Estados Unidos;
novos relatórios de oferta e demanda, que podem recalibrar a percepção sobre estoques globais.
Um dos eventos no radar é o próximo relatório mensal de oferta e demanda do USDA, previsto para 12 de maio de 2026. O documento é acompanhado de perto pelo mercado porque pode mexer nas expectativas para produção, exportações e estoques, especialmente nos Estados Unidos. Se o relatório reforçar a percepção de oferta confortável, a soja pode continuar pressionada; se trouxer surpresa de aperto, abre espaço para repique técnico.
O que isso significa para produtor, cooperativa e comprador
Para o produtor, o cenário recomenda atenção redobrada ao momento de venda e à relação entre preço, prêmio e câmbio. Em vez de olhar só a cotação da saca, o cálculo precisa considerar margem e custo logístico. Para cooperativas e cerealistas, o ambiente segue favorecendo negociações pontuais, com comprador mais seletivo e vendedor buscando melhores janelas. Já para a indústria e para exportadores, o quadro de oferta abundante tende a manter matéria-prima disponível, embora com diferenças importantes entre regiões.
Em resumo, os dados atuais indicam que a soja deve manter tendência de queda ou, no mínimo, de preços enfraquecidos no Brasil ao longo de maio. A direção só deve mudar de forma mais consistente se houver uma combinação de câmbio mais favorável, reação firme em Chicago ou surpresa relevante nos próximos relatórios internacionais.