Brasileiro News

Economia & Finanças

Preço do leite ao produtor sobe de novo e volta a superar R$ 2

Preço do leite ao produtor sobe de novo e volta a superar R$ 2
Diego F. Parra - Pexels

Média Brasil do Cepea avançou 5,43% em fevereiro de 2026, na segunda alta seguida, com menor captação e disputa maior entre laticínios pela matéria-prima.

Atualizado em 23 de abril de 2026 às 19:04

O preço do leite pago ao produtor no Brasil voltou a subir em fevereiro de 2026 e marcou a segunda alta mensal consecutiva, segundo levantamento do Cepea, da Esalq/USP. A chamada Média Brasil fechou em R$ 2,1464 por litro, avanço de 5,43% ante janeiro. Mesmo assim, o valor ainda ficou 25,45% abaixo do registrado um ano antes, em termos reais.

O que puxou a alta no campo

De acordo com o Cepea, o movimento ganhou força porque os laticínios passaram a disputar mais a compra de leite cru em um momento de oferta menor. Entre janeiro e fevereiro, o Índice de Captação de Leite (ICAP-L) caiu 3,63% na Média Brasil, com influência de resultados em estados como Paraná, Goiás, São Paulo e Minas Gerais.

A redução da captação foi associada a dois fatores principais: a sazonalidade, que tende a piorar a oferta de pastagem nesta época do ano e elevar gastos com alimentação animal, e a cautela do produtor para investir, depois de uma longa sequência de quedas nos preços ao longo de 2025. O próprio Cepea havia mostrado que janeiro já tinha interrompido uma série de nove meses consecutivos de baixa.

Por que isso importa agora

A alta do preço ao produtor ajuda a recompor parte da receita de quem ficou pressionado no ano passado, mas não significa alívio completo. O Cepea informa que o Custo Operacional Efetivo da atividade ainda subiu 0,32% em fevereiro na Média Brasil. Ao mesmo tempo, a queda do milho e a recente valorização do leite melhoraram a relação de troca para o pecuarista no começo de 2026.

Para o consumidor, o sinal é relevante porque parte dessa pressão já aparece na cadeia. Em março de 2026, o leite longa vida subiu 11,74% no IPCA, um dos destaques da inflação de alimentos no domicílio, segundo o IBGE. No atacado paulista, o Cepea mostrou aceleração forte do UHT em março e, na parcial de abril, a média seguia em nível mais alto que no mês anterior.

O que ainda limita uma recuperação mais forte

Apesar da reação no campo, o mercado continua olhando para dois freios importantes: estoques ainda em circulação e importações elevadas. Em janeiro, as compras externas de lácteos cresceram 8% sobre dezembro, para 178,53 milhões de litros em equivalente leite, segundo o Cepea. Dados reunidos pela Epagri/Cepa mostram que, em março de 2026, o Brasil importou 28,3 mil toneladas de produtos lácteos, com predominância do leite em pó.

Na prática, isso significa que a recuperação do preço ao produtor pode continuar, mas tende a depender de uma combinação delicada entre oferta doméstica, ritmo de consumo e competitividade do produto importado. O próprio Cepea já vinha indicando que o viés de alta em 2026 poderia se consolidar de forma gradual, condicionado ao escoamento dos estoques.

O que o produtor e o setor devem monitorar

  • Captação no campo: se a oferta seguir apertada, a disputa entre laticínios pode sustentar novos reajustes.

  • Custos da dieta animal: milho e outros insumos seguem decisivos para a margem da atividade.

  • Importações: entrada maior de leite em pó e outros lácteos pode reduzir espaço para altas mais fortes no mercado interno.

  • Repasse ao varejo: aumentos em UHT e derivados ajudam a indústria a pagar mais pela matéria-prima, mas também testam a demanda do consumidor.

O cenário, portanto, é de recuperação, mas ainda com cautela. Depois de encerrar 2025 com forte perda real de preço, o produtor começou 2026 vendo o litro voltar para acima de R$ 2. O que vai definir a continuidade desse movimento nos próximos meses é menos o tamanho da alta já registrada e mais a capacidade do mercado de sustentar preços maiores sem travar o consumo.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.