O preço do algodão em pluma voltou a subir no Brasil em março e já superou R$ 3,60 por libra-peso, depois de meses oscilando em uma faixa mais estreita. Segundo o Cepea, a reação recente foi puxada pela entressafra, pela alta das cotações externas e pelo aumento dos custos logísticos, especialmente com o diesel, em um mercado no qual vendedores seguem firmes e parte dos compradores aceita pagar mais por lotes no spot.
O que está puxando a alta agora
O gatilho mais imediato é a combinação de oferta mais curta neste momento do calendário com uma postura menos flexível de quem vende. Em relatório divulgado em 18 de março de 2026, o Cepea informou que os preços reagiram nos últimos dias, saindo do intervalo de R$ 3,40 a R$ 3,50 por libra-peso, observado desde outubro de 2025, para voltar a ficar acima de R$ 3,60/lp. O centro de estudos também aponta que as recentes valorizações externas da pluma e o encarecimento do frete ajudam a sustentar as pedidas no mercado brasileiro.
Esse movimento já vinha sendo desenhado no começo do mês. Em nota de 11 de março de 2026, o Cepea registrou que, até o dia 9, o Indicador CEPEA/ESALQ havia avançado quase 1% em março, para R$ 3,5547 por libra-peso. Na prática, isso indica que a reação ganhou força ao longo dos dias seguintes.
Por que isso importa além da porteira
O algodão é uma matéria-prima central para a indústria têxtil e de confecção. Quando a pluma sobe, o impacto não aparece de forma automática e imediata no preço final da roupa, porque há estoques, contratos a termo e diferentes repasses ao longo da cadeia. Ainda assim, a alta muda o custo de compra da indústria, interfere na formação de preços de fios e tecidos e melhora o poder de barganha do produtor em um momento de oferta mais ajustada. Dados reunidos pela Abrapa mostram que o setor têxtil e de confecções no Brasil reúne 25,5 mil empresas e 1,31 milhão de empregos diretos, o que ajuda a dimensionar o peso econômico da matéria-prima.
Safra menor ajuda a explicar a firmeza
A sustentação dos preços também conversa com a expectativa para a próxima safra. A Conab estima produção brasileira de 3,8 milhões de toneladas de pluma em 2025/26, queda de 6,7% ante a temporada anterior. Segundo a estatal, a área deve recuar 3,2%, para cerca de 2,0 milhões de hectares, e a produtividade média também tende a cair. Menor oferta esperada não significa falta de produto no curto prazo, mas ajuda a manter o mercado sensível a qualquer aperto entre venda e compra.
Exportações seguem fortes, mesmo com recuo em janeiro
O mercado doméstico também é influenciado pelo ritmo dos embarques. A Abrapa, com base em dados do ComexStat, informa que o Brasil exportou 316,9 mil toneladas de algodão em janeiro de 2026, com receita de US$ 489 milhões. Foi um volume 23,8% menor do que o de janeiro do ano anterior, mas ainda assim o segundo melhor mês de janeiro da série histórica para o produto. No acumulado de agosto de 2025 a janeiro de 2026, os embarques chegaram a 1,722 milhão de toneladas, recorde para os seis primeiros meses do ano comercial.
Isso importa porque o Brasil segue muito exposto ao mercado externo no algodão. A própria Abrapa projeta exportações de 3,2 milhões de toneladas em 2025/26, alta de 13% sobre o ano comercial anterior. Já o USDA informou, em atualização de 13 de março de 2026, que Brasil e Estados Unidos devem responder juntos por 60% do comércio global de algodão nesta temporada.
O cenário internacional ajuda, mas não resolve tudo
O pano de fundo externo é de produção global alta, mas com estoques também elevados. O USDA projeta que os estoques finais mundiais em 2025/26 devem chegar a 76,4 milhões de fardos, o maior volume desde 2019/20. Ao mesmo tempo, a produção global deve crescer 2,1%, para 121 milhões de fardos. Esse quadro tende a limitar disparadas mais fortes e sustentadas no mercado internacional, mesmo quando há repiques de curto prazo. Em outras palavras: o mercado brasileiro sobe agora por fatores locais e de arbitragem externa, mas segue inserido em um ambiente global ainda abastecido.
O que o produtor, a indústria e o comprador devem observar
Produtor: preços mais firmes melhoram a referência de comercialização, mas o comportamento do câmbio, do frete e da nova safra continua decisivo.
Indústria: o custo da matéria-prima fica mais pressionado, sobretudo para compras no mercado spot e lotes com especificações mais disputadas.
Mercado: a entressafra ainda sustenta as cotações, porém a evolução da colheita e da oferta da safra 2025/26 pode redefinir o ritmo dos preços nos próximos meses.
O que pode acontecer a seguir
No curto prazo, o viés ainda é de firmeza enquanto a oferta imediata continuar restrita e os custos logísticos seguirem pressionados. Mas a continuidade da alta dependerá de três variáveis centrais: o comportamento do mercado externo, a entrada efetiva da nova safra brasileira e o apetite da indústria doméstica. Se a colheita avançar com normalidade e ampliar a disponibilidade de pluma, a pressão de alta pode perder força; se a demanda externa continuar absorvendo volumes relevantes, o mercado interno tende a seguir sustentado.
Essa leitura é uma inferência jornalística baseada nos sinais atuais de Cepea, Conab, Abrapa e USDA.