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Por que e como vietnamitas antigos pintavam dentes de preto

Por que e como vietnamitas antigos pintavam dentes de preto
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Escurecer os sorrisos era uma tradição entre vários povos do mundo, mas a técnica usada no Vietnã era especialmente sofisticada, revela novo estudo.

Atualizado em 17 de fevereiro de 2026 às 06:26

Ao longo de diferentes épocas e regiões do mundo, a preferência por dentes escurecidos apareceu como marca cultural — um tipo de “assinatura” social que distinguia grupos, fases da vida e até noções de beleza. No Vietnã, essa tradição ganhou um nível de refinamento incomum: não se tratava apenas de manchar o sorriso, mas de produzir um preto intenso, resistente e brilhante, obtido por um processo cuidadoso e demorado.

O que as evidências arqueológicas revelaram

Um estudo publicado no periódico Archaeological and Anthropological Sciences, no final de janeiro, apresentou o que os pesquisadores descrevem como as evidências arqueológicas mais antigas da prática em qualquer lugar do mundo. A equipe analisou a dentição de dois esqueletos da Idade do Ferro encontrados no sítio arqueológico de Dong Xa, na província de Hung Yen, no Vietnã.

Mesmo após cerca de 2 mil anos, os dentes mantinham sinais claros de escurecimento. Para ampliar a comparação, os cientistas também examinaram outro crânio, datado de aproximadamente 400 anos atrás, observando padrões semelhantes.

Mais do que bétele: por que a hipótese tradicional não bastava

Por muito tempo, uma explicação recorrente para dentes escuros na região se apoiou no consumo de nozes de bétele (ou nozes de areca), sementes conhecidas por causar coloração amarronzada na dentição. O problema é que a tonalidade gerada pela mastigação dessas nozes não corresponde ao preto maciço observado nos materiais arqueológicos.

As análises químicas apontaram outra direção: a presença de ferro e enxofre, compatível com sais de ferro usados na produção de pigmentos pretos. Em vez de um efeito colateral da dieta, o que aparece é um procedimento intencional, realizado por aplicações repetidas de uma pasta pigmentada.

Ferro, enxofre e um teste de laboratório

Para verificar se a química fechava, os pesquisadores reproduziram uma tinta metalogálica — feita a partir dos mesmos sais de ferro — e a aplicaram em um dente moderno extraído de um animal. O resultado gerou padrões químicos semelhantes aos identificados nos dentes dos crânios antigos, reforçando a hipótese do tingimento por pigmentos à base de ferro.

Como funcionava o tingimento vietnamita

Além dos exames laboratoriais, a equipe reuniu descrições históricas e dados etnográficos sobre o nhuộm răng đen, nome dado à prática no Vietnã. A reconstrução do método sugere uma técnica em etapas, baseada na preparação de corantes e no tratamento prévio dos dentes.

De forma geral, o processo incluía:

  • Preparação do pigmento: vegetais ricos em taninos eram aquecidos e combinados a compostos associados a utensílios de ferro ou a enxofre, gerando um material escuro.

  • Tratamento do esmalte: os dentes eram limpos e raspados com um item afiado ou com um agente ácido; esse preparo podia se estender por três dias.

  • Primeira etapa de cor: um pigmento avermelhado era preparado em um ciclo que variava de 8 a 15 dias, aplicado e deixado agir durante a noite.

  • Escurecimento final: um segundo pigmento, mais escuro, era preparado por 2 a 8 dias e também permanecia nos dentes por outra noite.

  • Polimento: o acabamento buscava o preto completo e reluzente, com uso de materiais como fuligem e alcatrão obtidos de vegetais queimados.

Um sinal de identidade e status

Relatos sobre um “Reino dos Dentes Pretos” aparecem em textos chineses antigos, e descrições posteriores indicam que o escurecimento do sorriso podia funcionar como marcador social. Em diferentes contextos, dentes pretos foram associados à distinção entre grupos, à diferenciação entre classes e a ritos de passagem ligados à maturidade — especialmente entre mulheres.

No caso vietnamita, a combinação de técnica, durabilidade e acabamento parece acompanhar transformações materiais do período, incluindo a maior difusão do ferro na Idade do Ferro. A tradição, segundo as descrições reunidas no estudo, podia durar por toda a vida, com retoques pontuais a cada dois ou três anos.

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