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Por que a cenoura ficou quase 80% mais cara em 2026

Por que a cenoura ficou quase 80% mais cara em 2026
MAURO FOSSATI - Pexels

Excesso de chuva, menor produtividade em Minas e oferta apertada nas Ceasas explicam a disparada que chegou ao consumidor pelo IPCA

Atualizado em 12 de maio de 2026 às 18:08

A cenoura virou um dos maiores focos de pressão no bolso do brasileiro em 2026. Em abril, o item subiu 26,63% no IPCA do mês, e o avanço acumulado no ano chegou a perto de 80%, segundo levantamento do jornal O Globo com base nos dados do IBGE divulgados em 12 de maio de 2026. Por trás da disparada, o quadro combina clima adverso, queda de produtividade, problemas de qualidade e oferta mais curta nas centrais de abastecimento.

O que fez o preço subir tanto

A explicação principal está no campo. Em janeiro, a CNA apontou que a alta da cenoura já refletia restrição de oferta em regiões estratégicas, especialmente em São Gotardo (MG), um dos polos mais importantes da cultura no país. Segundo a entidade, o excesso de chuvas afetou a produtividade e a qualidade das raízes, e a entrada de produto do Rio Grande do Sul não foi suficiente para segurar os preços no atacado.

Nos meses seguintes, o aperto continuou. A Conab registrou que, depois de sucessivas altas desde dezembro de 2025, o preço caiu só 1,23% na média ponderada em fevereiro, uma redução pequena demais para aliviar o mercado. No fim de fevereiro e no começo de março, as cotações voltaram a acelerar em várias Ceasas, com destaque para Belo Horizonte e São Paulo.

Chuvas atrapalharam a colheita e reduziram a oferta

O dado mais importante para entender março veio da própria Conab: ao considerar os dias úteis, a comercialização média diária de cenoura nas Ceasas em março ficou 17,6% abaixo da de fevereiro. A estatal atribuiu o movimento ao baixo ritmo de colheita, prejudicado pelas chuvas, o que reduziu a oferta e pressionou diretamente os preços. No mesmo período, a alta média ponderada da cenoura nas Ceasas chegou a 59,15%.

Na prática, isso significa que havia menos produto chegando ao atacado justamente num momento em que supermercados e sacolões precisavam repor estoques. Como a cenoura é um alimento perecível e com pouca possibilidade de armazenamento prolongado, qualquer ruptura na colheita ou no envio ao mercado costuma aparecer rápido no preço ao consumidor. Essa é uma inferência sustentada pelo comportamento de oferta e comercialização descrito pela Conab e pelo Cepea.

São Gotardo virou o centro do problema

Em abril, o Cepea informou que a oferta de cenoura em São Gotardo seguia controlada. Os rendimentos médios em março na região ficaram 7% abaixo dos de fevereiro e 26% abaixo do observado no mesmo período do ano passado. Além do menor volume, aumentaram os relatos de problemas de calibre e de defeitos fisiológicos, como o chamado “ombro roxo”, o que dificulta a comercialização.

Esse quadro ajuda a explicar por que o preço permaneceu elevado mesmo quando houve algum alívio pontual no fim de abril. Em 17 de abril, a caixa de 29 quilos da cenoura “suja” em São Gotardo foi negociada a R$ 120, no maior patamar desde o início de 2024, segundo o Cepea. Já no início de maio, o produto ainda era vendido na média de R$ 100 por caixa, sinal de que a normalização ainda não aconteceu por completo.

Como isso apareceu no IPCA

O repasse ao consumidor ficou claro nos índices de inflação. Em abril, a alimentação no domicílio subiu 1,64% no IPCA oficial, e a cenoura foi o item alimentar com maior alta do mês, com 26,63%. Na prévia de abril, o IPCA-15 já havia mostrado a mesma tendência, com avanço de 25,43% para a cenoura.

Ou seja: a disparada não foi um evento isolado de feira ou de supermercado de bairro. Ela apareceu primeiro no atacado, persistiu por semanas e depois entrou no índice nacional de preços calculado pelo IBGE. Esse encadeamento entre campo, Ceasas e varejo é o que transforma um problema regional de oferta em inflação sentida no país inteiro.

Quem sente mais e o que pode acontecer agora

A alta pesa mais para famílias que compram hortaliças com frequência e têm menos margem para substituir itens frescos por outras opções. Restaurantes, cozinhas industriais e pequenos comércios também sentem o impacto quando o produto encarece por várias semanas seguidas.

No curto prazo, há dois sinais para acompanhar:

  • ritmo da colheita em Minas Gerais, especialmente em São Gotardo;

  • volume enviado às Ceasas, que indica se a oferta está voltando ao normal;

  • qualidade das raízes, porque defeitos e calibres menores limitam a venda mesmo quando há produção.

O próprio IBGE indicou em maio que a expectativa de boa safra pode ajudar a pressionar preços para baixo mais adiante. Mas, até isso aparecer com consistência no varejo, a cenoura ainda tende a seguir sujeita a oscilações. Depois de meses de chuva, produtividade menor e oferta apertada, o preço só deve ceder de forma mais firme quando houver reposição regular e produto de melhor qualidade no mercado.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.