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Patente da semaglutida cai em março, mas ‘Ozempic brasileiro’ pode demorar

Patente da semaglutida cai em março, mas ‘Ozempic brasileiro’ pode demorar
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Fim da exclusividade não libera venda imediata: registro na Anvisa, produção do insumo e escala industrial ainda são barreiras para genéricos e similares chegarem às farmácias.

Atualizado em 10 de março de 2026 às 13:50

A patente da semaglutida no Brasil deve expirar em 20 de março de 2026, depois de o STJ rejeitar a tentativa de prorrogação feita pela Novo Nordisk. Mesmo assim, isso não significa que um “Ozempic brasileiro” estará disponível no dia seguinte nas farmácias. Entre o fim da exclusividade e a chegada de concorrentes ao mercado, ainda pesam análise regulatória, capacidade de fabricação, produção do insumo e adaptação da cadeia de canetas injetáveis.

O que muda com a queda da patente

A decisão mais recente do STJ manteve o entendimento de que as patentes ligadas à semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Rybelsus, não terão prazo estendido por causa da demora administrativa no exame do INPI. Na prática, isso preserva o fim da vigência em março de 2026.

Esse é o ponto jurídico mais importante porque, sem a barreira patentária, outros laboratórios passam a poder disputar o mercado com produtos à base de semaglutida, desde que cumpram todas as exigências sanitárias e industriais. Ou seja: a queda da patente abre a porta, mas não substitui o registro nem a prova de qualidade do medicamento.

Por que o remédio nacional não deve aparecer de imediato

O principal motivo é regulatório. A própria Anvisa informou, ao anunciar prioridade de análise para semaglutida e liraglutida, que a avaliação de pedidos envolvendo peptídeos sintéticos e biológicos está entre as mais desafiadoras no universo dos medicamentos. Em 6 de agosto de 2025, havia nove pedidos relacionados à semaglutida aguardando o início da análise.

Esse detalhe ajuda a explicar por que o calendário do consumidor pode ser bem diferente do calendário da patente. Mesmo com processos já protocolados, cada empresa precisa demonstrar segurança, eficácia quando aplicável, qualidade do insumo farmacêutico ativo, estabilidade, processo produtivo e consistência industrial para obter o aval da agência.

Há ainda um fator técnico relevante: semaglutida não é um comprimido simples de copiar. Trata-se de uma molécula complexa, usada em apresentações como canetas injetáveis, o que exige não só domínio do ingrediente ativo como também da formulação, do enchimento asséptico, do dispositivo e do controle de qualidade em larga escala.

Produzir o insumo e a caneta é parte do desafio

O Brasil já se movimenta para isso. Em 2024, o BNDES anunciou a inauguração, pela EMS, de uma fábrica em Hortolândia (SP) preparada para produzir moléculas como liraglutida e semaglutida. O próprio banco citou, na ocasião, que a patente da semaglutida vence em março de 2026, sinalizando a corrida da indústria nacional para ocupar esse mercado.

Mas ter planta industrial pronta não elimina, por si só, o tempo necessário para validação de processos, fornecimento do insumo, escalonamento da produção e obtenção das autorizações sanitárias. Em medicamentos de alta demanda, outro gargalo costuma ser a própria cadeia de embalagem e dispositivos, especialmente no caso das canetas.

Anvisa já tentou acelerar, mas isso não garante lançamento imediato

Em agosto de 2025, a Anvisa abriu um edital de chamamento para dar prioridade aos pedidos de registro de medicamentos com semaglutida e liraglutida. A agência também informou que daria preferência, dentro da fila prioritária, aos processos com etapas de fabricação do insumo ou do medicamento realizadas no Brasil.

Isso pode encurtar o caminho, mas não elimina a necessidade de análise técnica completa. Em outras palavras, prioridade não é liberação automática. O efeito prático mais provável é acelerar a avaliação dos dossiês, não colocar um concorrente no balcão instantaneamente em março.

O que isso significa para preço e acesso

O fim da patente tende a aumentar a concorrência e, com o tempo, pressionar preços para baixo. Ainda assim, o desconto ao consumidor pode não ser imediato nem uniforme. Isso porque o preço final depende de fatores como número de concorrentes aprovados, custo do insumo, escala de fabricação, estratégia comercial das farmacêuticas e capacidade de distribuição.

Além disso, semaglutida continua sendo um medicamento de prescrição controlada. Desde 23 de junho de 2025, a compra de produtos com esse princípio ativo passou a exigir retenção da receita, conforme informou a Anvisa. Portanto, mesmo com mais fabricantes no futuro, o acesso seguirá condicionado à avaliação médica.

Há outro ponto pouco lembrado: manipulação e informalidade

A agência também reforçou que não é permitida a importação nem a manipulação da semaglutida sintética até que exista um medicamento registrado com esse insumo sintético. O recado é importante porque mostra que o vácuo entre patente e oferta regular pode estimular atalhos irregulares — justamente o que a Anvisa tenta coibir.

Na prática, isso significa que o consumidor deve desconfiar de promessas de “semaglutida barata” sem registro claro, venda informal ou oferta fora dos canais regulares. A agência já publicou medidas contra lotes falsificados e produtos sem registro ligados a essa classe de medicamentos.

O que observar daqui para frente

Para saber quando o “Ozempic brasileiro” estará de fato mais perto das farmácias, os sinais mais concretos são estes:

  • publicação de registros no Diário Oficial da União;

  • anúncios formais de laboratórios sobre aprovação pela Anvisa;

  • início comprovado de fabricação do insumo e da caneta em escala comercial;

  • definição de distribuição e preço pelas farmacêuticas.

Até lá, a mensagem central é simples: a queda da patente em 20 de março de 2026 é um marco importante, mas representa só a primeira etapa. Para o consumidor, o impacto real só aparece quando houver produto registrado, fabricado em escala e efetivamente disponível no mercado.

Autor

Advogada, apaixonada por livros e séries. Também atuo como editora de conteúdos de variedades, unindo informação, criatividade e comunicação.