A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que, desde 2018, recebeu 225 notificações de casos suspeitos de pancreatite associadas ao uso de agonistas do receptor GLP‑1 no Brasil, incluindo seis óbitos que ainda estão sendo investigados. Os relatos, registrados no sistema VigiMed, referem-se a pacientes de São Paulo, Paraná, Bahia e Distrito Federal e envolvem tanto medicamentos comerciais quanto estudos clínicos.
Produtos e origem dos relatos
Entre as substâncias citadas nas notificações aparecem semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida. As comunicações mencionam marcas conhecidas no mercado, como Wegovy, Victoza, Trulicity, Saxenda, Xultophy, Ozempic, Rybelsus e Mounjaro.
A Anvisa alerta, contudo, que nem todos os casos permitem estabelecer nexo causal imediato, em parte porque há relatos de canetas falsificadas e de irregularidades na origem dos insumos. As notificações são tratadas como suspeitas até a conclusão das análises técnicas e existem lacunas de notificação: profissionais de saúde não são obrigados a comunicar todos os eventos adversos, o que limita a robustez dos dados.
Limitações para estimar risco real
Os órgãos reguladores apontam a ausência de informações oficiais sobre o número total de pacientes em tratamento como um obstáculo para calcular a incidência verdadeira desses eventos. Essa falta de um denominador confiável torna difícil comparar a frequência observada com a esperada nos bulas e avaliar se os relatos representam um aumento real do risco.
No contexto nacional, o mercado informal também complica a avaliação de segurança: estimativas citadas nas notificações indicam vendas irregulares da ordem de R$ 600 milhões por ano, cenário que eleva a incerteza sobre procedência e qualidade dos produtos consumidos.
Alerta internacional e sinalização de fabricantes
O levantamento brasileiro aparece após um comunicado do Reino Unido, no início de fevereiro de 2026, que relatou 19 mortes e múltiplos casos graves associados à classe. Em escala global, as notificações sobre pancreatite chegam a 14.530 relatos, com 378 mortes atribuídas aos agonistas do GLP‑1, segundo dados mencionados pela agência.
No caso específico do Mounjaro, o fabricante Elly Lilly já inclui advertência sobre pancreatite aguda nas suas informações técnicas, orientando a suspensão imediata do tratamento diante de suspeita de inflamação pancreática.
Medidas regulatórias e investigações
Desde abril de 2025, a Anvisa exige retenção da receita médica para a entrega das canetas emagrecedoras, medida destinada a reforçar a rastreabilidade e os critérios de indicação. A agência informou que as investigações seguem em curso e que poderá adotar novas restrições caso surjam evidências adicionais de risco.
A instituição também declarou estar em diálogo com fabricantes para atualizar bulas e protocolos de vigilância, ampliando os requisitos de monitoramento e a transparência sobre eventos adversos.
Recomendações práticas para reduzir riscos
Especialistas ouvidos nas comunicações técnicas recomendam medidas concretas para minimizar danos e melhorar a vigilância:
Prescrição por profissional qualificado: limitar o uso a pacientes com indicação clara, após avaliação clínica que justifique o benefício.
Avaliação prévia da função pancreática: realizar exames e revisão de histórico que possam apontar risco aumentado de complicações pancreáticas.
Monitoramento periódico: acompanhar o paciente durante o tratamento para identificar sinais de alerta e decidir sobre a continuidade da terapia.
Verificação da procedência: certificar a autenticidade das canetas e preferir canais formais de aquisição para reduzir risco de produtos falsificados.
Além disso, médicos são incentivados a notificar todos os eventos adversos no VigiMed, fortalecendo a base de dados e permitindo análises mais robustas sobre a segurança desses medicamentos.
Perspectivas e impacto
Por ora, as autoridades mantêm as terapias autorizadas disponíveis, mas reforçam a importância da prescrição responsável e do acompanhamento clínico. A continuidade das investigações, a melhoria na notificação de eventos adversos e a fiscalização do mercado informal são apontadas como medidas-chave para reduzir incertezas e proteger pacientes.
O desdobramento dessas ações regulatórias e a evolução das análises técnicas devem definir se haverá mudanças nas indicações, nas informações de segurança ou na disponibilidade das canetas no Brasil. Até lá, especialistas e reguladores recomendam cautela e vigilância reforçada no uso desses medicamentos.