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Ozempic e GLP-1 avançam em estudos contra álcool, nicotina e opioides

Ozempic e GLP-1 avançam em estudos contra álcool, nicotina e opioides
Reprodução

Pesquisas em humanos e grandes análises de prontuários reforçam o potencial desses remédios contra dependência, mas o uso para vícios ainda não é indicação aprovada.

Atualizado em 08 de março de 2026 às 13:45

Medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como a semaglutida presente em Ozempic e Wegovy, ganharam força em uma nova frente de pesquisa: a redução de compulsão e dependência por substâncias como álcool, nicotina, cocaína, cannabis e opioides. Os resultados mais recentes sugerem benefício real, mas ainda não colocam esses remédios como tratamento aprovado para vícios. Hoje, o cenário é de evidência promissora, com estudos clínicos em andamento e limites importantes a considerar.

O que as pesquisas mais recentes mostram

O avanço mais chamativo veio de um grande estudo observacional publicado em The BMJ no começo de março de 2026. A análise acompanhou mais de 600 mil veteranos dos Estados Unidos com diabetes tipo 2 e comparou usuários de agonistas de GLP-1 com pacientes que iniciaram outro tipo de remédio para diabetes.

Segundo o estudo, iniciar um GLP-1 esteve associado a menor risco de desenvolver transtornos por uso de substâncias. As reduções observadas foram de 18% para álcool, 14% para cannabis, 20% para cocaína, 20% para nicotina e 25% para opioides. Entre pacientes que já tinham transtorno por uso de substâncias, o uso da classe também apareceu ligado a menos atendimentos de emergência, menos internações, menor risco de overdose e menor mortalidade relacionada ao problema.

Esse tipo de estudo, porém, mostra associação, não prova causa e efeito. Em outras palavras: os dados reforçam a hipótese de benefício, mas não bastam sozinhos para transformar GLP-1 em terapia estabelecida contra dependência.

Onde a evidência em humanos está mais forte hoje

Até aqui, o campo mais avançado é o do álcool. Um ensaio clínico randomizado publicado pela JAMA Psychiatry encontrou evidência inicial de que a semaglutida semanal pode reduzir craving e alguns desfechos de consumo em adultos com transtorno por uso de álcool.

O estudo foi de fase 2 e pequeno, o que exige cautela. Ainda assim, ele é relevante porque vai além de relatos isolados e observa o efeito em um desenho mais rigoroso. Em paralelo, revisões científicas recentes indexadas no PubMed apontam que o álcool é, neste momento, a área com base clínica mais consistente dentro da pesquisa sobre GLP-1 e dependência.

Para tabagismo, os sinais existem, mas a base ainda é mais restrita. Ensaios com exenatida e dulaglutida sugeriram potencial ajuda em cessação ou em controle de peso após parar de fumar, mas os resultados ainda não permitem concluir que a classe, por si só, seja uma nova terapia padrão para nicotina. Para opioides, cocaína e outras drogas, o interesse cresceu mais rápido do que a prova clínica definitiva.

Por que esses remédios poderiam agir sobre vício

O GLP-1 é um hormônio envolvido em saciedade e controle metabólico. Nos últimos anos, estudos pré-clínicos e revisões publicadas em periódicos científicos indicaram que os agonistas desse sistema também podem influenciar circuitos cerebrais ligados a recompensa, impulso e craving. É essa ponte entre metabolismo e comportamento que fez a classe entrar no radar da medicina da dependência.

Em linguagem simples, a hipótese é que esses medicamentos não atuem apenas reduzindo fome, mas também modulando a busca repetitiva por recompensa em parte dos pacientes. Isso ajuda a explicar por que pesquisadores passaram a investigar efeitos sobre álcool, cigarro e outras substâncias. Ainda assim, mecanismo plausível não substitui demonstração clínica robusta.

O que muda na prática para pacientes agora

Por enquanto, não mudou a indicação oficial desses medicamentos para tratar dependência química. Ozempic segue indicado para diabetes tipo 2, e Wegovy para manejo de obesidade e sobrepeso em situações específicas, conforme informações oficiais da fabricante e decisões regulatórias. No Brasil, a Anvisa aprovou novas indicações cardiovasculares e renais para semaglutida em 2026, mas não para vícios.

Isso significa que usar GLP-1 com foco em dependência continua sendo, hoje, uma discussão de pesquisa ou de prescrição fora de bula, algo que exige avaliação médica individualizada, acompanhamento próximo e análise de riscos, custos, interações e efeitos adversos.

No Brasil, esses medicamentos também passaram a ter controle maior na dispensação. A própria Anvisa determinou retenção de receita para agonistas de GLP-1, medida que buscou responder ao aumento de uso fora das indicações aprovadas e a preocupações de farmacovigilância.

Quem pode ser impactado se a linha de pesquisa se confirmar

Se estudos maiores confirmarem os resultados iniciais, o impacto pode ser amplo. Transtornos por uso de substâncias seguem com alta carga de doença e poucas opções farmacológicas eficazes para várias dependências. Um remédio já conhecido na prática clínica, com efeito sobre craving e risco de recaída, poderia mudar protocolos e ampliar alternativas de tratamento.

Os grupos potencialmente mais afetados seriam:

  • pessoas com transtorno por uso de álcool, onde a pesquisa está mais madura;

  • fumantes com dificuldade de cessação, especialmente quando ganho de peso é barreira importante;

  • pacientes com obesidade ou diabetes que também convivem com dependência;

  • serviços de saúde interessados em reduzir internações, overdoses e recaídas.

Os limites que ainda impedem uma conclusão definitiva

Há pelo menos quatro travas importantes antes de transformar entusiasmo em recomendação ampla.

  1. Faltam ensaios maiores e com acompanhamento mais longo.

  2. Nem todo resultado observacional prova efeito direto; pode haver diferenças entre grupos que escapem ao controle estatístico.

  3. A população estudada nem sempre representa todo mundo; o grande estudo com veteranos dos EUA, por exemplo, tem perfil específico.

  4. Esses remédios têm custo e efeitos adversos, como náusea, vômito e problemas gastrointestinais, além de contraindicações e cuidados já conhecidos.

O que observar daqui para frente

Os próximos passos mais importantes são ensaios clínicos maiores, comparação entre diferentes moléculas da classe e identificação de quais pacientes realmente se beneficiam mais. A tendência é que os estudos tentem responder se o efeito aparece melhor em álcool do que em outras substâncias, qual dose seria necessária e por quanto tempo o tratamento precisaria ser mantido.

Hoje, a melhor síntese é esta: os agonistas de GLP-1 podem abrir uma nova frente contra vícios, e a pesquisa recente ficou mais convincente, especialmente para álcool. Mas ainda é cedo para tratar Ozempic e similares como solução pronta para dependência. Para o leitor, a informação mais útil é separar promessa científica de uso aprovado: a primeira cresceu bastante; o segundo ainda não aconteceu.

Autor

Advogada, apaixonada por livros e séries. Também atuo como editora de conteúdos de variedades, unindo informação, criatividade e comunicação.