Louva-a-deus voltou ao centro das conversas sobre natureza e crenças populares, tanto em redes sociais quanto em projetos científicos. A fama de “animal da sorte” vem de uma mistura de fatores: postura que lembra oração, comportamento calmo perto de pessoas e papel ecológico útil, porque ele caça outros insetos. No país, esse interesse cresceu junto com novos dados de coleções biológicas e estudos que ajudam a explicar por que o bicho é admirado.
Por que o louva-a-deus é ligado à sorte em diferentes culturas
A associação com bons presságios não nasceu de uma única tradição. Em diferentes regiões, o inseto aparece como sinal de proteção, paciência ou aviso espiritual. Parte disso se explica pelo próprio nome científico: “mantis” vem do grego e remete a “profeta” ou “adivinho”, ideia que atravessou séculos e ajudou a construir o imaginário de mistério em torno do animal.
No sul da África, por exemplo, há registros etnográficos de comunidades que tratam o louva-a-deus com respeito simbólico e evitam matá-lo. Já no cotidiano urbano, a leitura costuma ser mais simples: quando ele aparece no quintal ou na janela, muita gente interpreta como “boa energia”. Não há comprovação científica de sorte, claro, mas há um componente real por trás da percepção positiva, o benefício ambiental.
Esse benefício é direto: o louva-a-deus é predador e ajuda a regular populações de outros insetos. Em materiais técnicos da Embrapa sobre inimigos naturais de pragas, ele aparece entre os organismos úteis para o equilíbrio em cultivos. Em linguagem prática, isso significa menos pressão de pragas em hortas e jardins, principalmente onde já existe diversidade de plantas.
Dados atuais mostram diversidade alta e avanço da pesquisa
Quando o assunto é biodiversidade, os números mais usados hoje indicam mais de 2,4 mil espécies de louva-a-deus no mundo, com revisão constante da taxonomia. No Brasil, trabalhos recentes com coleções científicas reforçam a posição de destaque do país na diversidade do grupo, especialmente em áreas tropicais.
Um levantamento publicado em periódico especializado com base no acervo do INPA, em Manaus, revisou milhares de exemplares e consolidou o país com 247 espécies registradas no recorte analisado, além de novos registros nacionais. Esse tipo de estudo é importante porque transforma observações dispersas em dado confiável para pesquisa, conservação e educação ambiental.
Em março de 2025, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro anunciou a coleção Mantis Neotropical, com cerca de 800 exemplares, em parceria com o Projeto Mantis. A iniciativa ampliou a infraestrutura de referência para estudantes e pesquisadores e sinalizou uma mudança importante: o louva-a-deus deixou de ser apenas “curiosidade de quintal” para ganhar espaço institucional em ciência e divulgação.
O que é mito, o que é fato e como agir ao encontrar um
Alguns mitos ainda atrapalham a compreensão do animal. O principal é a ideia de que o louva-a-deus é perigoso para humanos. Não é. Ele pode reagir se for apertado com a mão, mas não representa risco relevante no dia a dia. Outro exagero comum envolve canibalismo após acasalamento, que existe em algumas situações, porém não define todo o comportamento do grupo.
Para quem encontra um exemplar em casa, a orientação prática é simples e ajuda a preservar o inseto:
evite tocar diretamente para não ferir patas e asas;
se necessário, use um pote para fazer a remoção cuidadosa;
solte em área com vegetação, longe de produtos químicos.
Na prática, entender o louva-a-deus como “símbolo da sorte” pode ser menos superstição e mais tradução popular de algo concreto: ele passa sensação de calma, é inofensivo para a maioria das pessoas e ainda contribui para o equilíbrio do ambiente. Em tempos de preocupação com perda de biodiversidade, esse olhar combina afeto cultural com informação útil, uma mistura que explica por que o inseto segue fascinando tanta gente.