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Lavar frango cru: entenda riscos e tabus culturais

Lavar frango cru: entenda riscos e tabus culturais
Christina Voinova - Pexels

Investigação em laboratório revela como contaminação cruzada expande bactérias e por que tradição desafia orientações oficiais

Atualizado em 08 de fevereiro de 2026 às 19:49

Em 8 de fevereiro de 2026, no laboratório de ciência de alimentos da Universidade de Reading, no Reino Unido, a BBC World Service investigou por que a prática de lavar frango cru continua dividindo cozinheiros apesar das recomendações oficiais de não fazê-lo.

Riscos de contaminação cruzada

Kimon-Andreas Karatzas, professor associado de microbiologia de alimentos da Universidade de Reading, demonstrou que, ao enxaguar um pedaço de frango sob a torneira por menos de dez segundos, microscopicamente invisíveis gotículas contendo Campylobacter e Salmonella se espalham por bancadas, utensílios e até alimentos que seriam consumidos crus, como alface e cenoura.

“Quando você lava frango na cozinha, cria microgotículas que podem causar doenças.”

Mesmo depois de cozinhar corretamente a carne, basta encostar um alimento cru em uma superfície contaminada para contrair intoxicação alimentar.

O perigo do Campylobacter

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Campylobacter está entre as quatro principais causas mundiais de doenças diarreicas e é a bactéria mais comum na gastroenterite, afetando principalmente crianças pequenas.

Não existe vacina contra esse microrganismo, ao contrário da Salmonella, cujos níveis na avicultura decresceram graças a programas de imunização em algumas regiões.

“Você deve sempre tratar o frango como se ele tivesse Campylobacter e Salmonella.”

Uma única gotícula pode conter cerca de 10 trilhões de Campylobacter, e apenas 100 a 500 células são suficientes para causar infecção.

Sintomas e alcance do problema

A Food Standards Agency (FSA) estima que mais de 250 mil pessoas são infectadas a cada ano apenas no Reino Unido.

Os principais sintomas surgem entre dois e cinco dias após a contaminação e incluem:

  • Diarreia, frequentemente com sangue;

  • Dor abdominal e febre;

  • Dores de cabeça, náusea e vômitos.

Idosos acima dos 60 anos e crianças correm maior risco de complicações graves, que podem demandar tratamento com antibióticos ou evoluir para condições crônicas, como síndrome do intestino irritável, artrite e, em casos raros, síndrome de Guillain-Barré.

“Estamos olhando apenas para a ponta do iceberg, e é possível que o número real de casos seja dez vezes maior.”

Por que tantos ainda lavam o frango?

Um estudo publicado em 2024 na revista Food Control revelou que 96% dos entrevistados em oito países do Sudeste Asiático lavam o frango antes de prepará-lo. Nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, pesquisas apontam entre 39% e 70% de praticantes desse hábito.

Enquanto em grande parte do mundo ocidental o frango já chega processado e higienizado, em mercados locais a céu aberto a carne costuma ser abatida na hora, tornando a lavagem um passo que muitos veem como necessário para garantir limpeza.

Identidade cultural em jogo

A chef jamaicana April Jackson confessa que inclui imagens de frango sendo lavado em seus vídeos de cozinha para alimentar o debate:

“Quando lavamos o frango, dá para ver que a água fica muito turva. Ela fica muito suja, e culturalmente não queremos comer isso.”

Fadwa Hilili, criadora de conteúdo no TikTok, mostrou o método de sua mãe marroquina, que esfrega a carne com sal e limão e depois deixa-a de molho. Segundo ela, o ritual também reflete valores de cuidado e procedência.

Como equilibrar tradição e segurança

Muitos defensores da lavagem argumentam que, se a tábua de corte usada para frango merece ser higienizada, por que não a carne em si?

“Quando você lava, por exemplo, uma tábua de corte que teve frango, o mesmo risco existe.”

Especialistas concordam que o caminho mais seguro é lavar as mãos antes e depois do manuseio, manter superfícies limpas com água quente e sabão e garantir que o frango seja sempre completamente cozido, alcançando temperatura interna mínima de 75 °C para matar microrganismos.

Autor

Advogada, apaixonada por livros e séries. Também atuo como editora de conteúdos de variedades, unindo informação, criatividade e comunicação.