HUG aponta que, em 2025, um levantamento com profissionais do setor de comunicação mostra que o trabalho remoto se consolidou como critério decisivo para aceitar e permanecer em vagas, ao mesmo tempo em que revelou alta incidência de sintomas psicológicos e baixa oferta de terapia corporativa — combinação que pressiona a gestão de pessoas nas empresas.
Home office virou diferencial na atração e retenção
Segundo a pesquisa da HUG, 67,7% dos entrevistados relatam melhora na qualidade de vida ao trabalhar em home office ao longo do ano. Outros 23,1% apontam efeitos ambíguos, e 9,2% consideram o impacto predominantemente negativo.
Essa percepção transformou o formato remoto em elemento estratégico para Recursos Humanos. Decisões sobre regimes de trabalho, presencial, híbrido ou remoto, passaram a influenciar não só o employer branding, mas também o custo e o tempo de contratação, a composição de benefícios e a negociação com talentos.
Gustavo Loureiro Gomes, fundador e CEO da HUG, sintetiza a mudança: a disputa por profissionais deixou de se concentrar apenas em salário e agora envolve demandas por flexibilidade, autonomia e qualidade de vida, fatores que entram no centro das negociações entre empregadores e candidatos.
Sintomas psicológicos aparecem com frequência
Apesar do balanço positivo sobre qualidade de vida, a pesquisa revela um quadro preocupante: 83,6% dos participantes disseram ter experimentado pelo menos um sintoma psicológico no último ano.
Os sintomas mais citados foram ansiedade (51,5%), dificuldade de concentração (47,0%) e sensação de exaustão ou burnout (39,6%). Esses números sugerem que os benefícios práticos do home office, como economia de tempo com deslocamento, podem coexistir com desgaste emocional e comprometimento do funcionamento cognitivo.
Especialistas ouvidos pela HUG e profissionais da área apontam que fatores como mistura entre horários de trabalho e vida pessoal, expectativas de disponibilidade constante e sobrecarga de tarefas podem contribuir para esse cenário. Raquel Nunes, especialista em Recursos Humanos na HUG, alerta que, sem estruturas corporativas adaptadas ao trabalho remoto, a flexibilidade tende a se transformar em fonte de isolamento e sobrecarga.
Baixa oferta de terapia corporativa e custos pessoais
O levantamento também expõe uma lacuna na cobertura de cuidados: apenas 11,9% dos entrevistados relatam ter acesso a terapia oferecida pela empresa. Metade dos profissionais arca com o acompanhamento psicológico por conta própria, 26,1% já chegaram a fazer terapia e interromperam o processo, e 11,9% dizem nunca ter buscado apoio.
Essa discrepância entre demanda por suporte emocional e benefícios efetivamente disponíveis evidencia um gap organizacional. A ausência de políticas e benefícios estruturados pode transferir para o bolso e para a rotina individual o custo de manter a saúde mental.
Além do aspecto financeiro, a falta de acompanhamento adequado tende a refletir em desempenho, engajamento e risco de rotatividade, pontos críticos num mercado em que o home office passou a pesar na decisão de permanecer na empresa.
Implicações e caminhos para as empresas
O contraste entre a percepção de qualidade de vida e a alta prevalência de sintomas psíquicos impõe que empresas redesenhem práticas de gestão para que a flexibilidade se traduza em ganho sustentável. A pesquisa indica que, sem medidas concretas, o home office pode preservar vantagens práticas e, ao mesmo tempo, conviver com rotina de pressão emocional.
Entre as frentes apontadas como prioritárias estão ampliar a oferta de atendimento psicológico formal, estruturar políticas claras de desconexão, capacitar lideranças para identificar sinais de desgaste e revisar cargas e prazos de trabalho. Essas ações, embora não detalhadas no levantamento, surgem como respostas práticas ao descompasso evidenciado pelos dados.
Há ainda espaço para iniciativas complementares, como programas de prevenção voltados a comunicação e gestão de expectativas, incentivo a pausas regulares e revisão de métricas de produtividade que não premiem disponibilidade 24 horas. Tais medidas ajudam a transformar os benefícios do remoto em ganhos reais de bem-estar e sustentabilidade organizacional.
Com o trabalho remoto consolidado como diferencial competitivo, a pergunta que fica para empregadores é quais medidas concretas estão dispostos a adotar para reduzir o descompasso entre flexibilidade e saúde mental, e assim preservar tanto a qualidade de vida dos profissionais quanto a eficiência e a retenção das equipes.