A escalada da guerra no Oriente Médio pode voltar a pressionar os preços de ovos e carnes no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O alerta não está ligado a falta imediata de produto, mas ao encarecimento do frete marítimo, do petróleo e de insumos da cadeia, além do risco de rotas mais longas para exportação. Se esse cenário persistir, o repasse pode chegar ao consumidor.
Por que a guerra afeta ovos e carnes no Brasil
O ponto central é logístico e de custo. Em entrevista à Forbes Agro, o presidente da ABPA, Ricardo Santin, afirmou que o frete deve encarecer por causa da chamada taxa de guerra. A publicação informou que a sobretaxa de risco pode variar de US$ 3 mil a US$ 4 mil por contêiner em embarcações que seguem operando na zona de conflito.
Além disso, a insegurança no corredor marítimo da região pode forçar desvios de rota, inclusive com navegação pelo Cabo da Boa Esperança, no sul da África, o que aumenta tempo de viagem, custo operacional e pressão sobre contratos de exportação. Esse efeito é mais visível no frango, mas tende a contaminar a cadeia de proteína animal como um todo, porque energia, transporte e alimentação dos animais pesam no custo final.
O que muda para o consumidor
No curto prazo, o efeito mais provável é uma pressão adicional de custos, não um desabastecimento. Em outras palavras: se petróleo, frete e grãos seguirem subindo, frigoríficos e produtores podem ter menos espaço para segurar preços no mercado interno.
No caso dos ovos, a própria ABPA já vinha explicando, em nota publicada em 2025, que o preço responde a uma combinação de demanda sazonal, custo do milho, embalagens e clima. Na ocasião, a entidade disse que a alta era comum no período da quaresma e lembrou que as exportações tinham efeito praticamente nulo sobre a oferta doméstica, por representarem menos de 1% da produção nacional. O novo componente agora é o risco geopolítico, que pode encarecer a cadeia mesmo sem reduzir a oferta de forma imediata.
O tamanho da exposição do setor
O alerta da ABPA ganha peso porque o Oriente Médio segue relevante para a proteína animal brasileira. Segundo a Forbes Agro, com base em dados do setor, a região respondeu por US$ 3,08 bilhões em compras de frango brasileiro em 2025, o equivalente a 33,1% da receita total das exportações do produto.
Ao mesmo tempo, a ABPA entrou em 2026 projetando crescimento de produção e de exportações. De acordo com projeções divulgadas pela entidade e reproduzidas pelo Canal Rural, o Brasil deve produzir 15,6 milhões de toneladas de carne de frango, 5,7 milhões de toneladas de carne suína e 66,5 bilhões de ovos em 2026. Ou seja: a oferta tende a crescer, mas isso não impede alta de preços se o custo para produzir e transportar subir mais rápido.
Ovos já vinham pressionando a inflação
O consumidor já sentia esse movimento antes mesmo do agravamento da guerra. Dados do IBGE mostram que, em março de 2025, o ovo de galinha foi um dos itens que mais pressionaram o IPCA. O instituto explicou que a alta teve relação com o custo do milho, base da ração, e com o aumento da demanda no período da quaresma.
Esse histórico ajuda a entender por que o setor teme uma nova rodada de aumento. Quando o milho sobe, o frete encarece e a energia pesa mais, a proteína animal tende a reagir. A guerra, portanto, não cria sozinha o problema, mas pode agravar um quadro que já é sensível.
O que observar daqui para frente
Para saber se a alta vai mesmo chegar com força ao varejo, vale acompanhar alguns sinais nas próximas semanas:
o comportamento do preço do petróleo;
a manutenção ou não das sobretaxas de guerra no transporte marítimo;
eventuais desvios prolongados de rota para cargas brasileiras;
a evolução do preço do milho e de outros insumos da ração;
o ritmo de repasse da indústria para atacado e supermercados.
Se o conflito perder força rapidamente, parte da pressão pode ser temporária. Mas, se o custo logístico continuar elevado, ovos e carnes podem ficar mais caros mesmo com produção em alta no Brasil.