António Ambrósio, egiptólogo e pesquisador independente ligado à Universidade Autônoma de Barcelona, apresentou um estudo que afirma que as Grandes Pirâmides de Gizé podem ter até 12.000 anos, muito antes da formação da civilização egípcia dinástica, levantando perguntas sobre quem as construiu e por que foram apropriadas por faraós posteriores.
Hipótese e contexto
O trabalho de Ambrósio reúne argumentos arqueológicos, análises de engenharia e interpretações históricas para sustentar que as três pirâmides principais de Gizé, atribuídas tradicionalmente aos faraós Khufu (Quéops), Khafre e Menkaure, já existiam antes do surgimento da sociedade egípcia conhecida. Segundo o autor, as estruturas teriam sido incorporadas ao patrimônio dinástico, em vez de terem sido erigidas originalmente pelos governantes da Quarta Dinastia.
O estudo ainda não passou por revisão por pares. Seus autores afirmam que, caso as evidências sejam confirmadas, seria necessária uma revisão ampla da cronologia e de conceitos sobre engenharia e organização social na pré-história humana.
Ausência de túmulos e sinais de apropriação
Um dos pontos centrais do artigo é a falta de evidências funerárias típicas dentro das pirâmides principais. Ambrósio ressalta que não foram encontradas múmias reais ou conjuntos completos de artefatos funerários nas câmaras internas, e que o sarcófago associado a Quéops foi achado vazio.
Para o pesquisador, esse esvaziamento não confirma a autoria construtiva dos faraós, mas indica que as estruturas podem ter sido reivindicadas por governantes dinásticos já existentes. A discussão inclui ainda o cartucho com o nome Khufu, pintado acima da Câmara do Rei: enquanto vários egiptólogos defendem sua autenticidade, críticos alegam que a inscrição pode ter sido inserida por Howard Vyse em 1837.
Complexidade construtiva e custo tecnológico
O estudo destaca diferenças técnicas entre as Grandes Pirâmides e outras pirâmides datadas entre 2500 e 2150 a.C. Ambrósio cita o alinhamento astronômico preciso, os cortes de pedra de alta exatidão e uma base extremamente nivelada como exemplos de uma engenharia que, segundo ele, não foi plenamente replicada por construções posteriores.
Conforme o artigo, pirâmides menores erguidas em épocas subsequentes apresentam defeitos estruturais visíveis, uso de materiais de qualidade inferior e ausência de alinhamentos celestes consistentes, o que, na leitura do pesquisador, aponta para uma técnica original mais avançada do que a praticada pelas dinastias conhecidas.
Esfinge e evidências geológicas
A erosão observada na Esfinge é outro elemento citado para sustentar maior antiguidade. Ambrósio interpreta sinais de desgaste por água pluvial intensa, um fenômeno climático que, segundo ele, não ocorreu de forma significativa na região desde aproximadamente 5000 a.C. até 3000 a.C.
Se essa interpretação estiver correta, argumenta o estudo, a exposição da Esfinge e do complexo de Gizé a chuvas mais intensas indicaria cronologias prévias ao estabelecimento da sociedade dinástica, reforçando a hipótese de ocupação muito anterior.
Paralelos globais e a ideia de uma tradição perdida
O artigo relaciona as pirâmides de Gizé a outras megaconstruções megalíticas, como Sacsayhuamán, no Peru, e Baalbek, no Líbano, sugerindo semelhanças estruturais que poderiam apontar para a circulação de saberes construtivos ou, na hipótese mais abrangente do estudo, para uma cultura tecnologicamente avançada com alcance intercontinental.
Ambrósio e outros estudiosos citados mencionam ainda o conceito egípcio de Zep Tepi — o “Primeiro Tempo” — e referências de autores como Graham Hancock e Robert Schoch, que associam tradições mitológicas a possíveis eventos históricos muito antigos, por volta de 10.500 a.C. O pesquisador Matthew LaCroix também é citado sobre a ideia de transmissão de conhecimento por meio de geometria e simbolismo em monumentos espalhados pelo planeta.
Limitações, controvérsias e implicações
Apesar das afirmações, o estudo convoca cautela: muitas das interpretações propostas são debatidas na comunidade acadêmica e dependem de datações diretas e de análise contextual mais ampla. A ausência de revisão por pares é destacada tanto pelos autores quanto por críticos como um fator que restringe a aceitação imediata das conclusões.
Se confirmada, a hipótese teria impacto profundo sobre a história antiga, exigindo revisão de cronologias e uma reflexão sobre como sociedades posteriores apropriavam-se de monumentos e tradições anteriores. Até que novas datações e avaliações multidisciplinares sejam publicadas, o debate sobre a origem e a idade das Grandes Pirâmides de Gizé deve permanecer em aberto e motivar investigação científica adicional.