Depois de uma disparada histórica em fevereiro, o mercado de feijão começou março mais travado no Brasil. Levantamento do Cepea mostra que, após a alta de 29,3% no preço médio do feijão carioca entre janeiro e fevereiro, muitos compradores se afastaram das negociações no início de março, o que passou a pressionar as cotações, sobretudo dos lotes de qualidade intermediária.
O que mudou no começo de março
No boletim divulgado em 9 de março de 2026, o Cepea informou que o mercado iniciou o mês em ritmo lento porque parte da cadeia teve dificuldade para repassar ao atacado e ao varejo as altas registradas em fevereiro. Com isso, compradores passaram a priorizar a liquidação de estoques antes de voltar às compras.
Na prática, isso fez o feijão carioca de notas 8 e 8,5 sentir mais pressão de baixa em todas as regiões acompanhadas pelo centro de pesquisas. Já os lotes de padrão superior tiveram comportamento misto: caíram em algumas praças, mas seguiram sustentados em outras pela restrição de oferta. No feijão preto, a menor presença compradora também provocou desvalorizações em parte das regiões monitoradas.
Por que fevereiro foi tão fora da curva
O movimento de valorização veio de um mercado já apertado. Segundo o Cepea, fevereiro terminou com recorde nominal para o feijão carioca na série Cepea/CNA, iniciada em setembro de 2024. No caso do feijão preto, a média mensal foi a maior desde janeiro de 2025.
Entre os fatores apontados para a alta estão as dificuldades de colheita, chuvas em áreas produtoras como Minas Gerais e Goiás e a menor disponibilidade de lotes de melhor qualidade. A CNA destacou que as precipitações durante a colheita comprometeram a qualidade e reduziram a oferta do produto superior, o que intensificou a disputa pelos melhores grãos no fim de fevereiro.
Oferta segue apertada e limita alívio maior
Mesmo com a pressão vista no começo de março, o quadro de oferta ainda ajuda a explicar por que o mercado não desabou após a disparada. Em fevereiro, o Cepea afirmou que a disponibilidade interna de feijão deve ser a menor em uma década. O centro calculou produção de 2,97 milhões de toneladas e disponibilidade interna de 3,09 milhões de toneladas, menor nível em 10 anos quando se somam safra, estoques iniciais e importações.
Pelos dados mais recentes da Conab, publicados em 12 de fevereiro de 2026, a produção nacional de feijão na safra 2025/26 deve ficar próxima de 3 milhões de toneladas, somadas as três safras. Antes, no quarto levantamento, a estatal já apontava que a primeira safra teria queda de 7,4% na produção e recuo de 11,1% na área plantada.
O que isso significa para produtor, atacado e consumidor
Para o produtor, o início de março indica um mercado menos eufórico do que em fevereiro, mas ainda sensível à oferta curta. Para o atacado e o varejo, o principal desafio é converter a alta no campo em preços aceitos pelo consumidor. Quando esse repasse emperra, as compras desaceleram e as cotações no mercado físico tendem a perder força, como ocorreu na primeira semana do mês.
Para o consumidor, isso não significa necessariamente queda imediata no supermercado. O ajuste costuma levar tempo porque depende do ritmo de reposição do varejo, do padrão de qualidade disponível e do comportamento da segunda safra nas próximas semanas. Hoje, o sinal mais claro é de acomodação depois de um choque de alta, não de reversão completa da tendência. Essa leitura é uma inferência jornalística baseada no recuo do apetite comprador, na dificuldade de repasse e na oferta ainda limitada descritos por Cepea, CNA e Conab.
O que acompanhar agora
O ritmo da segunda safra de feijão e as condições climáticas nas principais regiões produtoras.
A capacidade de atacado e varejo de absorver os preços mais altos registrados em fevereiro.
O comportamento dos lotes de melhor qualidade, que seguem mais protegidos pela oferta curta.
Se a oferta continuar restrita, o espaço para quedas mais fortes pode ser limitado. Se a segunda safra avançar sem novos problemas climáticos e o consumo seguir lento, a tendência é de mercado mais pressionado e seletivo nas próximas semanas.