As exportações brasileiras de carne bovina abriram 2026 em ritmo forte e ajudaram a reduzir, ao menos por enquanto, a dependência do setor em relação à China. Depois de um 2025 recorde, os embarques somaram 531,3 mil toneladas e US$ 2,84 bilhões em janeiro e fevereiro, segundo dados da Secex compilados pela Abiec. A China segue como principal compradora, mas sua fatia no bimestre ficou abaixo da registrada no ano passado, enquanto Estados Unidos, Rússia, Chile, México e União Europeia ganharam espaço.
Dois meses de recorde e um sinal importante para o setor
Janeiro de 2026 foi o melhor janeiro da série histórica para a carne bovina brasileira, com 264 mil toneladas embarcadas e receita de US$ 1,404 bilhão. Em fevereiro, o ritmo não arrefeceu: o país exportou 267,3 mil toneladas, com faturamento de US$ 1,44 bilhão, no melhor resultado já registrado para o mês.
Os números mostram um setor ainda muito competitivo no mercado internacional, mesmo depois da mudança mais sensível do começo do ano: a entrada em vigor, em 1º de janeiro de 2026, da salvaguarda chinesa para a carne bovina importada. A medida criou uma cota anual inicial de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil, com sobretaxa de 55% sobre o que exceder esse volume, conforme informou o Ministério da Agricultura e Pecuária.
China continua líder, mas perde peso relativo
O dado mais relevante para 2026, até aqui, não é uma queda absoluta da China, e sim a perda de participação relativa. Em janeiro, os chineses compraram 123,2 mil toneladas, equivalentes a 46,6% do volume exportado pelo Brasil no mês. Em fevereiro, foram 106,7 mil toneladas, cerca de 39,9% do total mensal.
No bimestre, isso significa algo perto de 43,3% das exportações brasileiras de carne bovina. É um patamar ainda elevado, mas abaixo dos 48% registrados em 2025, quando a China absorveu 1,68 milhão de toneladas de um total de 3,50 milhões exportadas pelo país. Em outras palavras, o mercado chinês continua decisivo, porém já responde por uma parcela menor do fluxo neste início de ano.
Essa mudança importa porque o principal risco para 2026 é justamente a concentração. Se o Brasil mantivesse a mesma dependência de 2025, a nova regra chinesa teria potencial de desorganizar contratos, pressionar preços e exigir um redirecionamento mais brusco de volumes no segundo semestre. Com uma base um pouco mais distribuída entre outros compradores, o impacto tende a ser menos abrupto.
Quem está absorvendo mais carne brasileira
Os Estados Unidos seguem como segundo mercado mais importante neste começo de ano. Em janeiro, importaram 29,9 mil toneladas; em fevereiro, 39,4 mil toneladas. Só no segundo mês do ano, também se destacaram Rússia, com 15,8 mil toneladas, Chile, com 13,9 mil toneladas, e União Europeia, com 9,1 mil toneladas.
Segundo a Abiec, houve avanço expressivo das compras de Rússia, México e Chile na comparação com janeiro, além de alta nas vendas para a União Europeia. O movimento reforça uma estratégia que o setor já vinha tentando consolidar: vender para mais mercados, com mais regularidade, para não ficar excessivamente exposto a um único destino.
Esse redesenho não elimina o risco chinês, mas melhora a capacidade de resposta da cadeia exportadora. Na prática, frigoríficos e tradings ganham mais alternativas comerciais para diferentes cortes e perfis de demanda.
Por que isso importa para o Brasil agora
A carne bovina é um dos produtos de maior peso na pauta do agronegócio e na geração de divisas. Quando as exportações aceleram, o efeito aparece no caixa das empresas, na ocupação de plantas frigoríficas, na arrecadação e na balança comercial.
Para 2026, o ponto central é que o crescimento das vendas externas veio antes de uma acomodação mais forte causada pela nova política chinesa. Isso dá algum fôlego ao setor para negociar contratos, buscar destinos alternativos e calibrar embarques ao longo do ano.
Há ainda um componente estrutural favorável: o Brasil entrou em 2026 com a credencial de país reconhecido pela OMSA como livre de febre aftosa sem vacinação, status recebido oficialmente em junho de 2025 e visto pelo setor como um ativo para acessar mercados mais exigentes. Esse fator não produz efeito imediato sozinho, mas fortalece a agenda de abertura e diversificação comercial.
O que observar daqui para frente
Os próximos meses dirão se a desaceleração da dependência da China é uma tendência ou apenas um ajuste de começo de ano. O mercado vai acompanhar sobretudo:
o ritmo mensal dos embarques para a China diante da cota de 2026;
a capacidade de expansão de mercados como Estados Unidos, México, Chile, Rússia e União Europeia;
o comportamento dos preços internacionais da proteína;
o efeito de novas habilitações sanitárias e comerciais para destinos ainda pouco explorados.
Por enquanto, o quadro é de força exportadora com concentração menor do que a observada em 2025. Não significa que a China deixou de ser o centro do jogo. Significa, sim, que o Brasil começou 2026 em condição um pouco melhor para absorver o choque da nova regra chinesa.
Os dados de exportação citados nesta reportagem são da Secretaria de Comércio Exterior, compilados pela Abiec e pela Abiec. A regra chinesa em vigor desde 2026 foi detalhada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária.