Em meio à nova disparada do petróleo no mercado internacional, o etanol voltou ao centro do debate energético no Brasil. O argumento do setor é que o país chega mais preparado do que em crises passadas: além da frota flex, a gasolina brasileira passou a ter 30% de etanol anidro desde 1º de agosto de 2025, e a oferta do biocombustível segue apoiada pela cana e pelo avanço do etanol de milho.
Por que o etanol ganhou peso de novo
A avaliação de que o Brasil hoje tem um colchão maior contra choques do petróleo ganhou força com a escalada recente do barril. No mercado externo, o Brent voltou a operar acima de US$ 100 em março de 2026, num ambiente de forte tensão geopolítica e temor sobre a oferta global. Em paralelo, analistas ouvidos pela Reuters apontaram que preços mais altos dos combustíveis fósseis tendem a melhorar a rentabilidade do etanol e a levar usinas brasileiras a destinar mais cana para o biocombustível e menos para o açúcar.
Na prática, isso importa porque o Brasil tem uma vantagem rara entre grandes mercados consumidores: consegue substituir parte relevante da gasolina por um combustível produzido internamente. Essa proteção não elimina o impacto do petróleo sobre toda a economia, sobretudo no diesel, no frete e nos alimentos, mas ajuda a reduzir a vulnerabilidade do ciclo Otto, que abastece carros e motos leves.
O que mudou no Brasil desde as crises anteriores
O primeiro ponto é regulatório. Com a Lei do Combustível do Futuro e a decisão do CNPE, a gasolina vendida no país passou de E27 para E30, ampliando o espaço obrigatório do etanol na mistura. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a mudança fortalece a produção nacional e amplia a soberania energética brasileira.
O segundo ponto é de mercado. Em 2024, as vendas de etanol hidratado no país somaram 21,66 bilhões de litros, alta de 33,4%, enquanto a gasolina C caiu 4%, para 44,19 bilhões de litros, segundo dados da ANP apresentados em fevereiro de 2025. Já na safra 2024/25, as vendas de etanol pelas usinas do Centro-Sul atingiram recorde de 35,58 bilhões de litros.
O terceiro ponto é a diversificação da oferta. Dados da Unica mostram que, no início da safra 2025/26, o etanol de milho já respondia por 18,01% do volume produzido na segunda quinzena de maio, com alta anual de 12,29% naquele período. No acumulado do ciclo até o fim de maio, a produção de etanol de milho crescia 23,46%.
O que os dados mais recentes mostram agora
Na semana de 8 a 14 de março de 2026, a ANP registrou preço médio de revenda de R$ 6,46 por litro para a gasolina C e de R$ 4,64 por litro para o etanol hidratado. Mesmo com a alta recente da gasolina, o diferencial continua mantendo o etanol competitivo em parte relevante do país, especialmente nos Estados com tradição de consumo do biocombustível.
Levantamento da Unica com base na ANP já mostrava, no início de junho de 2025, que o etanol estava abaixo da paridade técnica com a gasolina em 187 dos 371 municípios pesquisados, com vantagem disseminada em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Na média nacional daquele recorte, o preço do etanol equivalia a 67,8% do preço da gasolina — faixa em que o abastecimento costuma compensar para veículos flex.
Do lado da oferta, a ANP informou que, para o ano-safra 2025/2026, foram homologados 504 contratos prévios entre fornecedores e distribuidores de etanol anidro, com volume cerca de 15% acima da meta regulatória. O dado é relevante porque ajuda a garantir a mistura obrigatória na gasolina num momento de maior incerteza internacional.
Até onde vai essa proteção
O etanol melhora a resiliência brasileira, mas não blinda o país por completo. O principal ponto de exposição continua sendo o diesel, combustível essencial para transporte de carga, máquinas agrícolas e boa parte da logística nacional. Em 2024, a própria ANP mostrou que cerca de 25% das vendas de diesel A foram supridas por importações, uma dependência bem maior do que a observada na gasolina A, em que a parcela importada foi de 10%.
Além disso, o alívio para o consumidor depende do repasse — ou não — da alta internacional para os preços domésticos. Em reportagem publicada em 9 de março, a Reuters informou que a Petrobras ainda não havia elevado os preços locais da gasolina, mesmo após a disparada do petróleo, e citou estimativa da Abicom segundo a qual a gasolina no Brasil estava 46% abaixo da paridade de importação. Ou seja: se houver ajuste mais forte nas refinarias, o etanol tende a ganhar atratividade; se o repasse for contido, essa troca pode demorar mais a aparecer nos postos.
O que pode acontecer a seguir
A tendência de curto prazo é de o etanol continuar no radar de usinas, distribuidoras e motoristas. A EPE projetou em fevereiro que a demanda total por combustíveis líquidos e GLP no Brasil deve crescer 3,5 bilhões de litros em 2026, enquanto o segmento do ciclo Otto deve chegar a 64 bilhões de litros. No mesmo documento, a empresa destacou que a perspectiva favorável para a safra 2025/26 de cana e o crescimento sólido do etanol de milho reforçam a segurança energética do país.
Para a safra 2026/27, a StoneX estimou produção recorde de 36,5 bilhões de litros de etanol no Centro-Sul, com crescimento de 4,4% no etanol de cana e de 17% no de milho. Se esse cenário se confirmar e o petróleo seguir pressionado, o Brasil tende a entrar na próxima temporada com incentivo econômico mais forte para ampliar a parcela de cana destinada ao biocombustível.
Em resumo, o país não deixou de sentir um choque do petróleo. Mas, ao contrário do passado, chega a 2026 com uma rede de proteção mais robusta no transporte leve: mistura maior na gasolina, oferta doméstica de etanol mais ampla, contratos regulados para o anidro e uma base produtiva que já não depende só da cana. É isso que sustenta a leitura do setor de que o Brasil hoje tem, de fato, mais etanol para enfrentar a turbulência externa.