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Embrapa usa IA para mapear áreas agrícolas abandonadas

Embrapa usa IA para mapear áreas agrícolas abandonadas
Embrapa Ia - Google

Método com imagens Sentinel-2 identificou 13,1 mil hectares em Buritizeiro (MG) e abre caminho para monitoramento mais preciso do uso da terra no Cerrado.

Atualizado em 26 de março de 2026 às 19:42

A Embrapa participou do desenvolvimento de um método com inteligência artificial para identificar áreas agrícolas abandonadas com base em imagens de satélite e dados recentes. Testada em Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, a ferramenta mapeou 13.147 hectares nessa condição entre 2018 e 2022, com acurácia geral de 94,7%.

Como a ferramenta funciona

O trabalho foi publicado na revista Land em 27 de dezembro de 2025 e reúne pesquisadores da Embrapa Cerrados, Embrapa Agricultura Digital, Embrapa Meio Ambiente e Universidade de Brasília. O estudo aplicou uma rede neural totalmente conectada, conhecida pela sigla FCNN, para classificar o uso da terra a partir de imagens do satélite Sentinel-2.

Na prática, os pesquisadores compararam imagens captadas em 15 de agosto de 2018 e 19 de agosto de 2022, usando bandas espectrais de 10 metros de resolução e indicadores como NDVI, EVI e BSI, além de componentes de mistura espectral e análise de componentes principais. Os dados foram processados na plataforma Google Earth Engine.

O critério adotado foi direto: áreas que eram lavoura anual, pastagem cultivada, plantio de eucalipto ou eucalipto já colhido em 2018 e passaram a aparecer como formações campestres ou arbustivas em 2022 foram classificadas como abandonadas. Segundo o artigo, esse é o primeiro esforço no Cerrado a medir esse fenômeno com aprendizado profundo.

O que o estudo encontrou em Minas Gerais

O município escolhido para o teste foi Buritizeiro, que tem cerca de 7.249 km² e aparece entre áreas com forte transição de uso da terra no Cerrado. No recorte analisado, a ferramenta apontou 13.147 hectares de áreas agrícolas abandonadas, equivalentes a 4,7% da área agrícola existente em 2018.

A maior parte desse abandono, 87%, estava ligada a plantações de eucalipto ou áreas de eucalipto colhidas. O estudo também registrou expansão importante da agricultura irrigada no período, de 858 hectares para 14.851 hectares, e identificou apenas um pivô central abandonado, com 88 hectares. Já nas lavouras anuais, os autores dizem não ter encontrado evidência de abandono no intervalo analisado.

Por que isso importa agora

O ponto central da pesquisa é que bases nacionais e regionais de uso da terra ainda não destacam, de forma explícita, a classe “área agrícola abandonada”. Isso dificulta medir a extensão do problema, entender suas causas econômicas e ambientais e planejar políticas de restauração, produção e ordenamento territorial com mais precisão.

Na conclusão do artigo, os autores afirmam que os mapas gerados podem servir de apoio ao planejamento regional do uso da terra, à gestão ambiental e a decisões ligadas à restauração agrícola, ao sequestro de carbono e à conservação da biodiversidade no Cerrado.

Esse tipo de monitoramento ganha peso num momento em que a agropecuária brasileira busca crescer com menos pressão por abertura de novas áreas. Em levantamento divulgado pela própria Embrapa em 2024, o país tinha cerca de 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para conversão agrícola, sem necessidade de avançar sobre áreas sensíveis.

No mesmo debate, dados do projeto TerraClass, do Inpe com participação da Embrapa, mostram que entre 2018 e 2022 a expansão dos cultivos temporários no Cerrado ocorreu sobretudo sobre áreas já antropizadas, como pastagens e lavouras de um ciclo, sinalizando intensificação do uso da terra.

O que a nova técnica ainda não resolve

Apesar do avanço, a pesquisa não entrega ainda um mapa nacional pronto de áreas abandonadas. O teste foi feito em um município do norte de Minas e os próprios autores reconhecem limitações, especialmente para distinguir abandono de pastagens, pastagens degradadas e vegetação campestre natural, que têm resposta espectral parecida nas imagens ópticas.

Por isso, o próximo passo tende a ser ampliar a escala, incorporar séries temporais mais densas e combinar novos dados para separar melhor o que é abandono, o que é pousio, o que é degradação e o que já virou regeneração natural. Hoje, segundo o artigo, os dados e mapas produzidos no estudo estão disponíveis mediante solicitação ao autor responsável, o que mostra que a metodologia já existe, mas ainda não está oferecida como plataforma pública nacional.

O que o leitor precisa reter

  • A Embrapa ajudou a desenvolver um método de inteligência artificial para localizar áreas agrícolas abandonadas.

  • O teste em Buritizeiro (MG) encontrou 13.147 hectares nessa condição entre 2018 e 2022.

  • A classificação alcançou 94,7% de acurácia geral.

  • O principal foco de abandono identificado foi o eucalipto, não a lavoura anual.

  • A tecnologia pode melhorar políticas de restauração, planejamento territorial e uso mais eficiente de áreas já abertas.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.