Eliza Filby, historiadora britânica e autora do best-seller “Inheritocracy: It's Time to Talk About the Bank of Mum and Dad”, afirma que, no Reino Unido, o sucesso financeiro das gerações mais novas tem dependido cada vez mais do patrimônio dos pais e avós, um movimento acelerado após a crise de 2008 e que ajuda a explicar por que pessoas com menos de 45 anos estariam mais perto da casa própria com ajuda da família do que apenas com a renda do trabalho.
Um termo provocativo para descrever uma virada
Filby escolheu um título que funciona como contraponto direto à ideia de meritocracia. Em entrevista ao apresentador Amol Rajan, no podcast “Radical”, da BBC Rádio 4, ela descreve a “herançocracia” como um ambiente em que as oportunidades não são definidas só por salário, estudo ou esforço individual, mas pelo acesso ao chamado “banco da mamãe e do papai”.
Na prática, isso significa que a rede de proteção que antes se imaginava vir do trabalho e das políticas públicas passa, com frequência, a depender do que a família consegue oferecer. Para a autora, essa mudança não altera apenas planilhas: ela mexe com decisões de vida, expectativas e até relações pessoais.
Baby boomers e a economia que não se repetiu
No livro, Filby analisa como a riqueza acumulada por uma geração específica, os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964, ajudou a moldar o sistema econômico em que as gerações seguintes tentaram construir a vida adulta. Segundo ela, os impactos já são profundos para a geração X (1965 a 1980) e para os millennials (1981 a 1986), e tendem a se prolongar para a geração Z (1997 a 2012) e a geração alfa (2013 a 2024).
O ponto central é que a narrativa do “trabalhe duro e suba na vida” encaixou bem para muitos baby boomers, mas por razões que vão além do mérito individual. Filby relaciona esse período a condições econômicas e políticas incomuns do pós-guerra, com crescimento sustentado e a estabilidade relativa associada à Guerra Fria (1947-1991).
Com governos arrecadando mais, políticas para ampliar oportunidades ganharam força, e a expansão do ensino superior virou uma rota importante para jovens da zona rural e da classe trabalhadora. A autora reconhece ganhos sociais e culturais dessa abertura. O problema, segundo sua análise, é que a partir dos anos 1990 a universidade passou a ser tratada como caminho quase único de “vida bem-sucedida”.
Quando o diploma vira promessa cara e estreita
Filby argumenta que o sistema não tinha como entregar, para todos, a mesma estabilidade prometida. Na leitura dela, criou-se um modelo em que cerca de 50% das pessoas ficaram sem uma alternativa clara para alcançar segurança de vida fora do roteiro “estudar, ir para a universidade, obter credenciais e conseguir uma carreira estável”.
Com o tempo, deixar de ir para a universidade passou a ser visto como escolha de menor prestígio. Ao mesmo tempo, o valor econômico do diploma começou a perder força, enquanto os custos para obtê-lo subiam. O resultado, como ela descreve, é uma geração que assumiu dívidas para acessar uma promessa que já não garantia o mesmo retorno, e isso pesou especialmente sobre jovens de famílias com menos recursos, atraídos pela expectativa de aumentar a renda e ajudar em casa.
A crítica da autora também mira a rigidez do modelo: uma definição estreita de inteligência e sucesso, herdada do século 19, que se torna ainda mais sensível num momento em que a inteligência artificial ameaça funções de escritório. Nessa visão, a formação não pode se encerrar aos 21 anos, nem ficar concentrada apenas no indivíduo.
O “banco da mamãe e do papai” e a nova rede de segurança
É nesse cenário que a expressão “banco da mamãe e do papai” ganha relevância. Filby relata que o termo começou a circular no Reino Unido por volta de 2013, para descrever pais e avós usando patrimônio para ajudar filhos e netos com estudos, aluguel, hipotecas, creches ou mesmo despesas de fim de mês.
Após a crise financeira de 2008, segundo ela, a entrada na vida adulta mudou de maneira abrupta. Alguns itens ficaram mais baratos, como tecnologia, viagens e pequenos luxos, mas custos estruturais passaram a pesar mais, como moradia, educação e cuidado com crianças (e, em alguns países, saúde). Nessa composição, gastos cotidianos chamam atenção, enquanto os “marcos” da vida adulta ficam difíceis de alcançar sem suporte familiar.
Em palestras para empresas, a autora costuma provocar gestores com uma observação: empregados com menos de 45 anos tenderiam a ter mais chance de comprar uma casa com lealdade aos pais do que com lealdade ao chefe. O ponto, no entanto, não é acusar irresponsabilidade juvenil. Ela interpreta o movimento como adaptação a um Estado que se retirou e a um mercado que ficou disfuncional em áreas essenciais, uma dinâmica que, para ela, tem muito de “amor parental”.
Não é só classe média: apoio assume formas diferentes
Filby ressalta que o fenômeno não se limita a famílias de classe média acomodada. Ela diz que muitos jovens que seguem morando com os pais perto dos 30 anos vêm da classe trabalhadora. Nesses casos, o “banco” não aparece como entrada para financiamento imobiliário, mas como teto, comida e uma estrutura de cuidado mútuo.
Ela descreve uma solidariedade familiar maior em diferentes faixas de renda: avós que cuidam de netos para que os pais trabalhem, famílias que acolhem filhos adultos para permitir economia, e lares que funcionam como colchão de segurança em um sistema mais frágil.
O problema, na análise da autora, é a desigualdade de ponto de partida. Nem toda família tem patrimônio, renda ou condições emocionais para oferecer esse suporte. Assim, numa sociedade em que a estabilidade depende da família, o nascimento pesa mais: divórcios, famílias recompostas, conflitos internos ou pobreza estrutural viram desvantagens difíceis de contornar.
Impactos no amor, no trabalho e na confiança no futuro
Para Filby, a herançocracia vai além do dinheiro e começa a reorganizar escolhas afetivas e planos de vida. Ela cita a tendência de formar casais entre pessoas com recursos e origens semelhantes, algo que muda de ênfase ao longo do tempo: antes, a aproximação entre formandos universitários era mais determinante; depois de 2008, ela argumenta que o acesso ao patrimônio familiar se tornou variável decisiva.
Sem tratar isso como “casamento por salário”, a autora sustenta que pessoas com acesso ao “banco da mamãe e do papai” tendem a se encontrar e formar pares. Ela menciona pesquisas segundo as quais mais da metade dos jovens da geração Z considera a compatibilidade financeira central numa relação — uma fatia maior do que a observada em gerações anteriores.
Ao mesmo tempo, Filby descreve um cenário em que a riqueza privada segue concentrada em grupos mais velhos, enquanto parte da geração X vive como “classe média espremida”, dividida entre apoiar filhos adultos e cuidar de pais envelhecidos.
Por que discutir isso virou urgente
Na leitura de Filby, o efeito político e social é corrosivo: quando as pessoas passam a duvidar de que esforço e trabalho tragam recompensas, não é só a economia que balança. Cai também a crença na capacidade do Estado moderno de garantir que a próxima geração terá vida melhor, rompendo uma promessa que muitos ouviram dentro de casa.
Ela aproxima esse clima de desilusão ao que marcou a década de 1970, como um período que força a revisão do “contrato social”. Por isso, defende que o debate precisa sair da caricatura sobre “nepotismo” e se concentrar no essencial: como as oportunidades estão sendo distribuídas — e o que acontece com uma sociedade quando a herança começa a falar mais alto do que a trajetória construída no trabalho.