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Desperdício de alimentos pode custar US$ 540 bi em 2026

Desperdício de alimentos pode custar US$ 540 bi em 2026
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Projeção vale para a cadeia global de processamento ao varejo; ONU diz que 19% dos alimentos disponíveis ao consumidor já viram descarte

Atualizado em 02 de abril de 2026 às 19:10

O desperdício global de alimentos pode atingir US$ 540 bilhões em 2026 se o quadro atual continuar, segundo uma projeção econômica divulgada pela Avery Dennison com modelagem do Centre for Economics and Business Research. O valor se refere à cadeia de suprimentos do processamento ao varejo e ajuda a dimensionar um problema que também pressiona preços, margens das empresas, segurança alimentar e emissões de gases de efeito estufa.

O que está por trás da projeção de US$ 540 bilhões

A estimativa foi apresentada no relatório “Making the Invisible Visible”, publicado pela Avery Dennison em 6 de janeiro de 2026. Segundo a empresa, os economistas do Cebr modelaram o custo do desperdício em termos de valor adicionado bruto, para evitar dupla contagem ao longo da cadeia. A pesquisa ouviu 3.502 executivos e líderes de sustentabilidade de mercados como Estados Unidos, Reino Unido, Índia, China e Brasil.

O dado central do estudo é que, mantidas as tendências atuais, o desperdício ao longo da cadeia global de suprimentos de alimentos pode subir de US$ 526 bilhões em 2025 para US$ 540 bilhões em 2026. No recorte do relatório, carne aparece como a categoria mais crítica em valor perdido, seguida por produtos frescos.

Por que esse número importa agora

O valor chama atenção porque surge num momento em que o combate ao desperdício virou meta internacional. A ONU estabeleceu no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12.3 que o mundo deve reduzir pela metade o desperdício per capita de alimentos até 2030 no varejo e no consumo, além de cortar perdas ao longo da produção e da distribuição.

O problema não está restrito às empresas. De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), o mundo desperdiçou 1,05 bilhão de toneladas de alimentos em 2022, o equivalente a 19% do total disponível para consumidores em lares, serviços de alimentação e varejo. Desse volume, a maior parte veio das residências.

Antes mesmo de chegar às lojas, há outra camada de ineficiência. A FAO informa que mais de 13% dos alimentos se perdem globalmente na cadeia de suprimentos depois da colheita e antes do varejo. Na prática, isso significa que a conta do sistema alimentar é maior do que a cifra de US$ 540 bilhões, porque ela não captura sozinha todo o desperdício global do campo ao prato.

Não é só uma questão ambiental

Há um efeito direto sobre custos, produtividade e abastecimento. Quando alimentos são descartados, perdem-se também água, energia, fertilizantes, transporte, armazenamento e trabalho. Em um cenário de inflação de alimentos e pressão sobre renda das famílias, reduzir perdas pode ajudar empresas a preservar margens e consumidores a enfrentar menos volatilidade.

O impacto climático também é expressivo. Segundo a UN Climate Change, a combinação de perda e desperdício de alimentos responde por 8% a 10% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa e impõe um custo econômico de cerca de US$ 1 trilhão por ano. Ou seja: a projeção de US$ 540 bilhões para 2026 é relevante, mas representa apenas uma parte de um problema econômico ainda maior.

Onde estão os gargalos na cadeia

O estudo da Avery Dennison indica que a falta de visibilidade sobre o que se perde em cada etapa da operação continua sendo um dos principais entraves. Entre os entrevistados, 61% disseram não ter visão completa do desperdício em sua cadeia, e 56% apontaram o transporte como um ponto cego importante.

Na prática, isso envolve dificuldades para prever demanda, controlar estoque, monitorar validade, ajustar temperatura e acelerar a reposição de itens perecíveis. Quando esse monitoramento falha, aumentam as chances de sobra, vencimento, avaria e descarte — especialmente em categorias de maior valor, como carnes, laticínios, frutas e verduras.

O que muda para empresas, governos e consumidores

Para empresas do setor, a leitura é clara: desperdício deixou de ser apenas tema reputacional e virou questão operacional e financeira. Quem consegue medir perdas com mais precisão tende a ganhar eficiência logística, reduzir descarte e melhorar planejamento de compra e oferta.

Para governos, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas que combinem infraestrutura, refrigeração, transporte, padronização de medição e incentivo à redistribuição de alimentos próprios para consumo. Já para consumidores, o recado é que parte relevante do problema está dentro de casa, o que amplia o peso de hábitos como planejar compras, armazenar corretamente e aproveitar melhor os alimentos.

O que observar daqui para frente

O dado de US$ 540 bilhões deve ser lido como uma projeção baseada nas condições atuais da cadeia global de suprimentos, e não como um balanço fechado de todo o desperdício mundial. Ainda assim, ele ganha importância por coincidir com a reta final para a meta de 2030 e por dialogar com estatísticas internacionais mais amplas da ONU sobre perdas, desperdício e clima.

Se não houver avanço consistente em rastreamento, logística, estocagem, gestão de perecíveis e redução do descarte no consumo, a tendência é de continuidade de um ciclo caro em três frentes ao mesmo tempo: negócios, preços dos alimentos e impacto ambiental.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.