A nova escalada do conflito no Oriente Médio voltou a tensionar o mercado global de fertilizantes ao atingir rotas marítimas, seguros de carga e a percepção de risco sobre fornecedores importantes de ureia, fosfatados e potássio. Para o Brasil, que segue altamente dependente de importações, o efeito mais imediato tende a aparecer em frete, prêmio de risco e custo de reposição dos insumos.
O que mudou agora no mercado
Os sinais mais recentes vieram do transporte marítimo. Segundo a S&P Global, a piora do quadro de segurança no Estreito de Ormuz elevou o custo do seguro de guerra para navios e reduziu o tráfego na rota, uma das mais sensíveis para o comércio de commodities do Golfo. Num mercado em que boa parte do adubo cruza oceanos, esse tipo de choque costuma chegar ao comprador antes mesmo de aparecer integralmente nas cotações internacionais.
O Banco Mundial também já captou a virada recente nos preços. Na atualização publicada em 3 de março de 2026, a instituição informou que os fertilizantes subiram 6,5% em fevereiro. No detalhe do “Pink Sheet”, a ureia de referência no Leste Europeu passou de US$ 415,4 por tonelada em janeiro para US$ 472,0 em fevereiro, enquanto o cloreto de potássio foi de US$ 366,0 para US$ 372,5 no mesmo período; o DAP, um dos principais fosfatados, foi de US$ 619,2 para US$ 626,5.
Por que o Oriente Médio pesa tanto nos fertilizantes
A região concentra produção e exportação relevantes, sobretudo de nitrogenados e fosfatados, além de estar conectada a insumos básicos da cadeia, como gás natural, enxofre e ácido sulfúrico. Isso importa porque o gás é matéria-prima decisiva para nitrogenados, como a ureia e a amônia. Em fevereiro, o preço do gás na Europa ficou em US$ 11,24 por MMBtu, segundo o Banco Mundial, mantendo a cadeia sensível a qualquer interrupção adicional de oferta e logística.
No mercado asiático, compradores já relatam aperto de oferta e alta de custo logístico. A S&P Global registrou avanço de ofertas de nitrogenados no Sudeste Asiático e dificuldade maior para compras de fosfatados da Jordânia e da Arábia Saudita, além de preocupação com potássio vindo de Jordânia e Israel. Em outra frente, a Argus informou que a Austrália já vê risco de oferta mais curta de ureia e preços domésticos em alta diante do conflito.
O que isso significa para o Brasil
O ponto de vulnerabilidade do Brasil é conhecido: o país continua fortemente dependente de compras externas. Segundo estudo do Insper Agro Global, com base em dados oficiais e da FAO, a relação importação/consumo do complexo NPK ficou em mais de 90% em 2023. Em 2024, o Brasil importou 44 milhões de toneladas do complexo e gastou cerca de US$ 13,5 bilhões, com déficit de aproximadamente US$ 13,2 bilhões nessa balança.
Essa dependência não diminuiu em 2025. A Conab informou que o país importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes no ano passado, novo recorde da série histórica e alta de 2,68% sobre 2024. Em outras palavras, o Brasil entrou em 2026 com uma cadeia robusta de suprimento, mas ainda muito exposta a choques externos de preço, câmbio e frete.
No bolso do produtor, o risco é direto. O mesmo estudo do Insper lembra que, segundo a Conab, os fertilizantes representaram, em média, 23% do custo total nas culturas de soja, milho e algodão em 2024. Quando o adubo sobe, o impacto não fica restrito à indústria química: ele pode alterar margem, decisão de compra, pacote tecnológico e, mais à frente, o custo de produção de alimentos e fibras.
O efeito já é uma crise de oferta?
Ainda não há evidência, nos dados globais mais amplos, de um colapso generalizado de oferta para o Brasil neste momento. O que há, de forma mais clara, é uma pressão altista de curto prazo concentrada em frete, seguro, disponibilidade de navio e prêmio de risco, com repasse parcial às cotações internacionais. Isso ajuda a explicar por que a alta mais forte apareceu primeiro na ureia, produto muito sensível ao gás e à logística do Golfo. Essa avaliação é uma inferência jornalística baseada no comportamento recente dos preços do Banco Mundial e nos relatos de mercado compilados por S&P Global e Argus.
Quem pode sentir antes o impacto
Produtores que ainda vão comprar adubo para a próxima janela de plantio e podem encontrar reposição mais cara.
Misturadoras e distribuidores, que precisam recalcular custo de importação, frete e hedge cambial.
Cadeias mais intensivas em adubação, como grãos, algodão e café, onde o insumo pesa mais na planilha.
O que observar nas próximas semanas
Para medir se o choque será passageiro ou mais duradouro, o mercado deve acompanhar três variáveis: segurança no Estreito de Ormuz, comportamento do gás natural e evolução das cotações da ureia e dos fosfatados. Se a tensão militar ceder, parte do prêmio logístico pode ser desinflada relativamente rápido. Se houver prolongamento da crise, o mais provável é uma alta mais disseminada no custo CIF dos fertilizantes importados, inclusive para compradores brasileiros.
Por enquanto, a fotografia é esta: o Brasil não enfrenta falta imediata de fertilizantes, mas está diante de um mercado internacional mais nervoso, com preços novamente em trajetória de alta e um conflito geopolítico capaz de encarecer um insumo central para o agronegócio. Para um país que importa volumes recordes e depende do exterior para abastecer a lavoura, isso já é motivo de atenção.