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Casu marzu: o queijo com larvas vivas vetado na Itália

Casu marzu: o queijo com larvas vivas vetado na Itália
Shardan / Wikimedia Commons

Tradicional da Sardenha, o produto ganhou fama de “mais perigoso do mundo”, entrou em choque com regras sanitárias e hoje vive entre a cultura local e a proibição comercial.

Atualizado em 28 de maio de 2026 às 16:32

O casu marzu, queijo tradicional da ilha italiana da Sardenha, virou símbolo de uma contradição rara na gastronomia: é tratado como patrimônio cultural local, mas sua venda comercial é considerada ilegal na Itália por causa das regras de segurança alimentar. A peculiaridade é extrema: o produto amadurece com larvas vivas, responsáveis por transformar a massa do queijo em uma pasta cremosa e muito mais intensa.

O que é o casu marzu

O casu marzu nasce a partir de um pecorino de leite de ovelha e também aparece em registros regionais com outros nomes, como casu becciu, casu fattittu e casu frazigu. Em documento oficial, a Região Autônoma da Sardenha descreve o produto como um queijo cuja textura vai de macia a cremosa e cuja característica central vem da ação das larvas da mosca Piophila casei.

O mesmo cadastro regional mostra que o alimento continua reconhecido como produto agroalimentar tradicional da Sardenha, atualização publicada pelo governo regional e válida até 2025. Em outras palavras: ele segue existindo como tradição formalmente registrada, mesmo sem ter caminho livre para venda regular nas prateleiras.

Por que ele ficou conhecido como o “mais perigoso do mundo”

A fama internacional veio da combinação entre o modo de produção e o risco sanitário associado ao consumo. A Britannica registra que, em 2009, o Guinness World Records classificou o casu marzu como o “queijo mais perigoso”. A publicação também informa que o produto contém larvas vivas e que a comercialização é ilegal na Itália por preocupações de saúde.

O ponto mais sensível não é apenas o choque visual. Autoridades europeias tratam o tema como questão de higiene e segurança dos alimentos. A Comissão Europeia lembra que as regras de higiene alimentar da União Europeia se aplicam a todas as etapas da produção e da colocação de alimentos no mercado desde 1º de janeiro de 2006.

Por que o queijo foi barrado no próprio país

O caso do casu marzu não é o de um produto “apagado” da cultura local, mas o de um alimento que entrou em conflito com a legislação sanitária moderna. Em documento sobre uma petição apresentada ao Parlamento Europeu, o próprio Parlamento Europeu resume que, segundo a avaliação das autoridades italianas, o queijo é visto como um alimento contaminado e decomposto, além de apontar que as larvas podem carregar agentes patogênicos.

Na prática, isso ajuda a explicar a contradição que cerca o produto há anos:

  • ele é tradicionalmente reconhecido na Sardenha;

  • mas não atende ao padrão sanitário exigido para comercialização formal;

  • por isso, passou a circular por vias informais e em pequena escala.

Há risco real para quem come?

Existe preocupação sanitária, mas é importante separar folclore de evidência. O risco mais citado envolve a possibilidade de ingestão de larvas vivas. Registros médicos antigos mostram que a espécie Piophila casei já foi associada a casos de infestação intestinal acidental em humanos, como descreve a JAMA Network. Revisões médicas sobre miíase também apontam que a contaminação por larvas de moscas pode atingir o trato intestinal em casos raros.

Isso não significa que cada consumo de casu marzu resulte nesse desfecho, mas explica por que o alimento é visto com cautela por órgãos sanitários. Em vez de um simples “queijo exótico”, trata-se de um produto situado na fronteira entre tradição alimentar, decomposição controlada e risco microbiológico.

O que acontece agora com o casu marzu

O debate está longe de acabar. A petição analisada no Parlamento Europeu pede a retomada do status do casu marzu como alimento comestível na União Europeia, argumento apoiado na importância cultural do produto para a Sardenha. Até aqui, porém, o reconhecimento cultural não eliminou o obstáculo central: sem enquadramento sanitário aceito pelas autoridades, a venda formal continua travada.

Para o leitor, o ponto principal é este: o casu marzu ficou famoso na internet pelo aspecto extremo, mas a história real é mais complexa. Ele não é apenas “o queijo das larvas”. É um exemplo de como uma tradição regional pode sobreviver no imaginário, nos registros oficiais e no orgulho local, ao mesmo tempo em que esbarra nas regras contemporâneas de saúde pública.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.