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Caso Banco Master: como o banco cresceu e caiu sob investigação

Caso Banco Master: como o banco cresceu e caiu sob investigação
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Da expansão com CDBs agressivos à liquidação pelo Banco Central, entenda a cronologia do caso, os órgãos envolvidos e os riscos revelados para clientes, investidores e o sistema financeiro.

Atualizado em 05 de março de 2026 às 21:27

O caso Banco Master deixou de ser apenas uma crise de reputação e virou um dos episódios mais graves do sistema financeiro brasileiro recente. A trajetória mistura crescimento acelerado, captação de recursos com juros elevados, questionamentos sobre a qualidade dos ativos, tentativa de venda ao BRB, investigações criminais e, por fim, a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.

Como o Banco Master chegou ao centro da crise

O Master nasceu da transformação do antigo Banco Máxima, assumido por Daniel Vorcaro e rebatizado em 2021. A partir daí, o banco passou a crescer de forma agressiva em nichos como crédito, câmbio, mercado de capitais e distribuição de produtos financeiros. Reportagem da Bloomberg descreveu uma expansão média anual de 86% da carteira de crédito e uma estratégia apoiada fortemente na captação de dinheiro de pessoas físicas.

Na prática, o banco oferecia CDBs e outros papéis com remuneração acima da média do mercado, atraindo investidores em busca de retorno maior. Esse modelo ganhava tração porque muitos desses produtos contam com cobertura do FGC, que garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro, observado o teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos.

O ponto de inflexão veio quando o mercado passou a questionar se o crescimento do banco estava apoiado em ativos sólidos e liquidez suficiente. Segundo a Bloomberg Línea, uma mudança regulatória do Banco Central em dezembro de 2023 aumentou a pressão sobre bancos que dependiam mais desse tipo de funding, e o Master passou a buscar uma solução societária.

O que passou a ser investigado

O núcleo mais grave das apurações é a suspeita de que houve fabricação ou negociação de carteiras de crédito sem lastro real, além da substituição posterior desses ativos após fiscalização. Na primeira fase da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal informou que a investigação começou em 2024, por requisição do Ministério Público Federal, para apurar a possível fabricação de carteiras de crédito insubsistentes vendidas a outro banco e depois trocadas por outros ativos sem avaliação técnica adequada.

Na mesma nota, a PF afirmou investigar possíveis crimes de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. Já na segunda fase, relatada pela InfoMoney, surgiram suspeitas adicionais de criação e negociação de títulos de crédito falsos, tentativas de burlar a fiscalização do BC e operações relâmpago com rentabilidades incompatíveis com a normalidade do mercado.

Em 4 de março de 2026, a terceira fase da operação ampliou o escopo. Segundo nova nota da PF, passaram a ser apurados também indícios de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos, com bloqueio e sequestro de bens de até R$ 22 bilhões.

Quando o caso veio a público de vez

Os questionamentos sobre o Master já circulavam no mercado, mas o caso explodiu nacionalmente em 28 de março de 2025, quando o BRB anunciou a compra de 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total do banco. A operação foi apresentada como estratégica, com a promessa de formar um novo conglomerado prudencial e fortalecer a governança.

Em vez de acalmar o mercado, o anúncio aumentou a pressão. O negócio passou a ser visto como uma tentativa de resgate de uma instituição já fragilizada. Poucos dias depois, o MPF abriu investigação preliminar sobre a compra. O caso também passou a ser acompanhado pelo MPDFT e pelo Ministério Público de Contas do DF.

Em setembro de 2025, o Banco Central reprovou a operação, decisão que elevou o risco de uma intervenção mais dura. A recusa ocorreu num momento em que a qualidade dos ativos do Master, a real dimensão de seu patrimônio e a capacidade de honrar passivos já eram alvo de forte ceticismo no mercado.

O papel da CVM e o histórico regulatório

A crise não surgiu do nada. A CVM informou, em fevereiro de 2026, a existência de procedimentos administrativos ligados aos grupos Master e Reag e entidades conexas. Entre eles está um processo sancionador com acusação apresentada em maio de 2021 para apurar irregularidades ligadas à emissão e distribuição de cotas de fundos fechados, envolvendo Banco Master, Viking Participações, Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro e Benjamim Botelho, entre outros.

Em outro comunicado, a CVM afirmou que um grupo de trabalho criado para o caso identificou 165 processos originados de fontes externas, incluindo denúncias, comunicações da B3/BSM, do Banco Central e de outras autoridades. O dado ajuda a dimensionar que os alertas regulatórios e de mercado se acumularam por anos antes do desfecho mais dramático.

Quem são os principais nomes do caso

O personagem central é Daniel Vorcaro, controlador e principal rosto público do banco na fase de expansão. É dele a estratégia que levou o Master ao centro da Faria Lima e, depois, ao centro das investigações.

Outro nome-chave é Paulo Henrique Costa, presidente do BRB durante a tentativa de aquisição. Como a suspeita da PF e do MPF envolve a venda de carteiras do Master ao banco público e a própria operação societária com o BRB, a crise passou a ter também dimensão política e institucional em Brasília.

No plano regulatório, entraram em cena o Banco Central, pela supervisão bancária e pela decisão de liquidação; a CVM, pelos processos no mercado de capitais; a PF, pela investigação criminal; e o MPF, pela condução e requisição de apurações.

Por que o Banco Central liquidou o Master

Em nota oficial, o Banco Central decretou em 18 de novembro de 2025 a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimento, do Banco Letsbank e da corretora do grupo, além de impor Regime Especial de Administração Temporária ao Banco Master Múltiplo. O BC apontou deterioração da situação econômico-financeira, perda de liquidez e descumprimento de normas bancárias e de determinações anteriores da própria autoridade monetária.

Na prática, a decisão significou que o regulador concluiu que a continuidade da operação, nas condições existentes, já não era compatível com a segurança do sistema. Não se tratava mais apenas de investigar o passado, mas de conter o risco presente.

Impactos para clientes, investidores e mercado

O efeito mais imediato recaiu sobre os investidores em títulos emitidos pelo banco. Quem tinha produtos cobertos pelo FGC passou a depender do processo de ressarcimento dentro dos limites regulamentares. Já aplicações fora da cobertura, estruturas mais complexas ou exposições indiretas ficaram sujeitas à fila da liquidação e à recuperação de ativos.

O caso também mexeu com a percepção de risco sobre bancos médios e estratégias de captação baseadas em pagar juros muito acima do mercado. Quando uma instituição cresce oferecendo prêmios elevados demais, o investidor tende a enxergar oportunidade; depois do Master, a tendência é que veja também um sinal de alerta.

Para o sistema financeiro, o episódio reabriu discussões sobre três frentes:

  • a transparência na precificação de ativos de baixa liquidez;

  • o uso intensivo de funding protegido pelo FGC como motor de crescimento;

  • a velocidade de reação dos órgãos de supervisão diante de alertas repetidos.

Como o banco e a defesa reagiram

A defesa de Daniel Vorcaro tem afirmado, em diferentes manifestações públicas reproduzidas pela imprensa, que o empresário colabora com as autoridades e contesta a existência de fraude. Em janeiro de 2026, por exemplo, a defesa declarou que atenderia às medidas judiciais com transparência. A linha adotada até aqui é a de negar irregularidades estruturais e questionar a interpretação dada aos fatos pelas investigações.

O BRB, por sua vez, sustentou ao mercado que a operação com o Master tinha racional estratégico e reforçaria governança e escala. Depois da deflagração da primeira fase da Compliance Zero, o banco informou a contratação de auditoria externa para apurar os fatos relacionados às operações investigadas.

O que pode acontecer agora

As consequências potenciais do caso são amplas. No campo criminal, as apurações podem resultar em denúncias por crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção e outros delitos, a depender do que for comprovado. No plano administrativo, podem surgir multas, inabilitações, termos sancionadores e restrições para atuar no mercado financeiro e no mercado de capitais.

No plano civil e societário, o caso ainda pode gerar disputas sobre responsabilidade de administradores, indenizações a investidores e questionamentos sobre operações com partes relacionadas, avaliação de carteiras e deveres fiduciários. Também é plausível que o episódio acelere mudanças regulatórias em pontos sensíveis, como divulgação de risco, governança de bancos médios, venda de carteiras de crédito e monitoramento de estruturas mais opacas.

O dano talvez mais difícil de medir seja o da confiança. O escândalo do Banco Master não expôs apenas a fragilidade de uma instituição. Ele pressionou o BC, a CVM, o FGC, o BRB e o próprio mercado a explicar como tantos sinais de risco puderam conviver por tanto tempo com uma narrativa pública de expansão e sofisticação financeira.

Hoje, a cronologia do caso sugere uma sequência clara: crescimento acelerado, dúvida sobre os ativos, tentativa de solução societária, aprofundamento das apurações, veto regulatório e colapso. O desfecho judicial ainda está em aberto, mas o efeito institucional já está dado: o caso Master virou referência obrigatória para qualquer debate sobre supervisão, governança e risco bancário no Brasil.

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