A infectologista Tânia Vergara alerta que, no carnaval de 2026, beijos na folia podem facilitar a transmissão de infecções pela saliva e pelo contato próximo, e que a melhor forma de reduzir o risco é combinar vacinação em dia com atenção a sintomas e lesões na boca antes de sair beijando.
Por que o beijo pode virar porta de entrada para infecções
O beijo envolve troca direta de saliva e contato com a mucosa da boca, o que abre caminho para a circulação de germes. Além disso, a proximidade típica do carnaval (beijo, abraço e conversa “colada”) favorece a disseminação de doenças respiratórias.
Segundo a especialista, não existe beijo totalmente livre de risco: quanto maior o número de pessoas diferentes beijadas, maior a chance de exposição a vírus, bactérias e fungos.
A boa notícia é que parte importante da proteção depende de medidas simples, como manter a imunização atualizada e evitar contato quando há sinais evidentes de infecção nos lábios ou na cavidade oral.
Mononucleose: febre, dor de garganta e inchaço
Entre as doenças associadas ao contato com saliva está a mononucleose infecciosa, conhecida como “doença do beijo”, causada pelo vírus Epstein-Barr. A transmissão ocorre pelo contato com saliva contaminada, e os sintomas podem se confundir com outras infecções virais.
Podem aparecer febre, dor de garganta (inclusive ao engolir) e dores nas articulações. Tânia Vergara chama atenção para sinais que ajudam a diferenciar o quadro: inchaço no pescoço (gânglios), inchaço nos olhos (sinal de Hoagland) e presença de manchas brancas na garganta (placas). Também há casos sem sintomas.
A infectologista ressalta que o pico de incidência é maior entre 15 e 25 anos. Em situações mais graves, pode haver aumento do fígado ou do baço.
Ela também destaca que a mononucleose pode ser confundida com amigdalite bacteriana, o que exige cuidado na avaliação médica. Em geral, a recuperação ocorre em poucas semanas, com sintomas durando de 15 a 30 dias, e não há vacina nem tratamento específico — o foco é aliviar os sintomas.
Após a melhora, um cuidado recomendado é trocar a escova de dente. A cirurgiã-dentista Carolina Foot Gomes de Moura, professora do curso de Odontologia da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), explica que, embora nem toda doença bucal seja transmitida pela escova, existe chance de microrganismos passarem adiante quando o item é compartilhado.
Herpes labial: bolhas, ferida e maior transmissão
Coceira e ardência perto do lábio podem ser o primeiro aviso. Em seguida, surgem pequenas bolhas agrupadas que aumentam e podem se romper, formando uma ferida: é a herpes labial, causada por vírus e transmitida pelo contato com a boca e com a saliva.
Tânia Vergara explica que o contato com o vírus pode acontecer ainda na infância sem sinais aparentes. Depois, ele pode ficar “adormecido” e reaparecer em situações como exposição intensa ao sol, fadiga física e mental, estresse emocional, febre ou outras infecções.
O período de maior transmissão ocorre quando as bolhas liberam líquido e há lesão aberta. Nessa fase, a orientação é clara: evitar beijar. O tratamento pode envolver medicação oral ou pomadas, conforme indicação médica.
Sapinho: placas cremosas e imunidade baixa
O sapinho, ou candidíase oral, é provocado pelo fungo Candida albicans, que costuma viver em equilíbrio na boca e no intestino. Ele é mais frequente em crianças, que ainda desenvolvem as defesas do organismo, e pode ser favorecido por trocas de chupetas e brinquedos levados à boca.
Em adultos, a doença tende a preocupar mais quando a imunidade está baixa. Um sinal comum é o surgimento de placas cremosas e esbranquiçadas na língua, nos lábios, no céu da boca e na parte interna das bochechas. De acordo com Tânia Vergara, o tratamento costuma ser local.
Sífilis: ferida na boca merece investigação
A sífilis é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum e pode aparecer, entre outras formas, com uma ferida na boca. Como a lesão pode concentrar bactérias, o beijo pode transmitir a infecção.
Há diagnóstico, tratamento e cura para sífilis disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Para prevenção sexual, a camisinha segue como a medida mais eficaz.
Um ponto de atenção destacado por Carolina Foot Gomes de Moura é o tempo de duração: se uma ferida na boca persistir por mais de 15 dias sem sinais de melhora, é importante buscar avaliação. Ela orienta procurar um cirurgião-dentista ao notar sinais como sangramento, inchaço, mudança de coloração e de textura, ou presença de massa ou nódulo — independentemente de doer ou não.
Outras doenças e o papel da vacinação antes da folia
Além das condições ligadas diretamente ao contato com boca e saliva, Tânia Vergara lembra que a proximidade do carnaval aumenta o risco de transmissão de gripes, catapora (varicela), sarampo, caxumba e Covid-19.
Essas infecções têm um ponto em comum: são imunopreveníveis. Por isso, a recomendação prática, antes de cair na folia, é revisar a caderneta e manter as vacinas em dia — seja pelo SUS, seja na rede privada.
Na hora do beijo, a prevenção também passa por observar sinais visíveis (como bolhas e feridas), respeitar sintomas como febre e dor de garganta e buscar orientação profissional quando algo foge do esperado. Em carnaval, o melhor “bloquinho” é o da cautela.