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Canetas emagrecedoras: o que elas fazem e os riscos reais

Canetas emagrecedoras: o que elas fazem e os riscos reais
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Criadas para diabetes e obesidade, essas drogas viraram febre para emagrecer e hoje têm venda mais controlada no Brasil por causa de eventos adversos e uso sem acompanhamento.

Atualizado em 06 de março de 2026 às 08:49

As chamadas canetas emagrecedoras não são cosméticos nem atalhos isentos de risco. Elas pertencem a uma classe de medicamentos criada para tratar doenças crônicas, como diabetes tipo 2 e obesidade, e passaram a ser usadas em larga escala para perda de peso. No Brasil, a Anvisa endureceu as regras de venda em 23 de junho de 2025, exigindo retenção de receita.

O que são, afinal, as “canetas emagrecedoras”

O apelido popular reúne principalmente medicamentos agonistas de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, além da tirzepatida, que atua em mais de uma via hormonal. De forma simplificada, essas drogas imitam hormônios intestinais ligados ao controle da glicose e da fome. Segundo a OMS, elas estimulam a liberação de insulina quando a glicose está alta, reduzem a secreção de glucagon, retardam a digestão e aumentam a sensação de saciedade.

É esse conjunto de efeitos que ajuda a explicar por que a pessoa pode comer menos e perder peso durante o tratamento. Mas isso não significa que o medicamento seja indicado para qualquer um, em qualquer dose, nem por tempo indeterminado sem reavaliação médica.

Para quais doenças esses remédios foram criados

Esses produtos nasceram primeiro no tratamento do diabetes tipo 2. No Brasil, o Ozempic, à base de semaglutida, é indicado para adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado, como adjuvante à dieta e exercício. A tirzepatida, vendida como Mounjaro, já estava registrada desde 2023 para melhorar o controle glicêmico em adultos com diabetes tipo 2.

Depois, versões e novas indicações passaram a mirar a obesidade, que hoje é tratada por diretrizes médicas como doença crônica e recorrente. A bula profissional do Wegovy informa que o remédio é indicado, em conjunto com dieta hipocalórica e atividade física, para controle de peso em adultos com IMC igual ou maior que 30 ou IMC a partir de 27 quando existe ao menos uma comorbidade relacionada ao peso. A Anvisa aprovou em 9 de junho de 2025 uma nova indicação do Mounjaro para controle crônico do peso em adultos com esses mesmos perfis clínicos.

Já a liraglutida, comercializada como Saxenda, também tem indicação para controle crônico do peso, e a própria Novo Nordisk informa que o produto está disponível no Brasil desde 2016.

Por que o uso para emagrecimento explodiu

A popularização veio da combinação entre resultados clínicos relevantes, forte exposição nas redes sociais, relatos de perda rápida de peso e busca por soluções imediatas. O problema é que a fama pública passou a misturar situações muito diferentes: tratamento de obesidade com indicação formal, uso fora da bula, automedicação, compras sem avaliação adequada e até procura por versões manipuladas ou falsificadas.

Esse avanço da demanda ficou claro para o regulador. Ao aprovar controle mais rígido, a Anvisa afirmou que observou número elevado de eventos adversos ligados ao uso fora das indicações aprovadas no país e que a análise de farmacovigilância no VigiMed sinalizou mais notificações relacionadas a esse uso do que os dados globais comparáveis.

Como ficou a regulação no Brasil

Desde 23 de junho de 2025, farmácias e drogarias devem reter a receita de medicamentos agonistas de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, entre outros, segundo a Anvisa. A prescrição precisa ser emitida em duas vias, e a receita vale por 90 dias.

Na prática, a agência equiparou esse controle ao modelo usado para antibióticos, numa tentativa de frear a banalização da compra e melhorar o rastreamento da dispensação. A medida não proíbe o uso, mas aumenta a barreira para aquisição sem acompanhamento.

Houve também um aperto sobre medicamentos manipulados. Em 25 de agosto de 2025, a Anvisa informou que a semaglutida registrada no Brasil é biotecnológica e que, por isso, não é permitida a importação nem a manipulação de semaglutida sintética até que exista medicamento registrado com esse insumo. A agência também relatou falhas de rastreabilidade e ausência de controle de qualidade adequado em parte desse mercado.

Quais são os riscos do uso sem médico

Os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais. A bula do Wegovy lista náusea, vômito, diarreia, constipação, dor abdominal e atraso no esvaziamento gástrico. A bula do Saxenda traz quadro semelhante. Quando o uso é sem orientação, esses efeitos podem ser subestimados ou confundidos com algo “normal”, mesmo quando já estão levando à desidratação, piora clínica ou necessidade de suspender a droga.

Há riscos menos frequentes, mas potencialmente graves. A própria bula do Wegovy alerta para pancreatite aguda, e a Anvisa publicou em fevereiro de 2026 um alerta específico sobre pancreatite aguda associada ao uso indevido desses medicamentos. A bula do Wegovy também informa ocorrência de colelitíase e colecistite em estudos clínicos, além de destacar que pacientes com gastroparesia podem ter sintomas gastrointestinais mais graves.

No caso da semaglutida, a Anvisa determinou em 2025 a inclusão em bula de um evento adverso muito raro, a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, que pode levar a perda súbita de visão. A agência informou que havia 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionadas à semaglutida no sistema brasileiro.

O risco também aumenta quando a pessoa usa doses erradas, mistura medicamentos para emagrecer, compra produto sem procedência ou abandona o seguimento clínico assim que emagrece alguns quilos. Segundo a FDA, versões não aprovadas e produtos manipulados de forma irregular podem estar associados a erros de dosagem e a eventos como náusea, vômito, diarreia, dor abdominal e constipação, inclusive com necessidade de atendimento médico.

O que essas drogas não fazem

Elas não curam obesidade nem substituem mudança de hábitos, acompanhamento nutricional e avaliação das doenças associadas. A OMS ressalta que medicamentos dessa classe devem integrar um programa mais amplo de cuidado e não resolvem sozinhos o problema do excesso de peso.

Também não são sinônimo de uso estético simples. Quando bem indicadas, podem ser ferramentas importantes contra uma doença crônica. Quando usadas como moda, promessa de emagrecimento rápido ou produto de prateleira, transformam um tratamento médico em risco evitável.

O que o paciente deve observar antes de começar

  • Se há indicação clínica real, e não apenas desejo de perder alguns quilos.

  • Qual é o diagnóstico de base: diabetes tipo 2, obesidade ou sobrepeso com comorbidades.

  • Qual produto tem indicação aprovada em bula para aquele caso.

  • Como será feito o escalonamento de dose, para reduzir efeitos adversos.

  • Quais sintomas exigem procura imediata de atendimento, como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sinais de desidratação ou alteração visual súbita.

  • Se o medicamento foi comprado em farmácia regular, com prescrição válida e produto de origem rastreável.

O ponto central

O debate sobre canetas emagrecedoras não é sobre demonizar remédios que funcionam. É sobre separar tratamento sério de consumo impulsivo. O que a regulação brasileira passou a dizer com mais clareza, desde 2025, é que esses medicamentos podem trazer benefício real quando usados para diabetes e obesidade com critério clínico, mas também podem causar dano concreto quando entram na lógica da automedicação, do uso fora de indicação e da compra sem controle.

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