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Café registra forte queda em Nova York

Café registra forte queda em Nova York
Kelly - Pexels

Mercado do arábica perde fôlego após melhora climática em áreas produtoras e avanço dos estoques certificados da ICE; pressão também cresce com projeção de safra recorde no Brasil.

Atualizado em 13 de março de 2026 às 06:15

Os contratos de café arábica em Nova York voltaram a perder força nos últimos dias, pressionados por um quadro que o mercado lê como mais confortável para a oferta. A combinação de chuvas em áreas produtoras do Brasil, alta dos estoques certificados na bolsa ICE e uma projeção oficial de safra recorde em 2026 reduziu parte do prêmio de risco que sustentava as cotações.

O que puxou a queda do café em Nova York

O movimento mais recente tem dois motores centrais: clima e estoque. De um lado, relatórios de mercado passaram a registrar condições mais favoráveis para o desenvolvimento da safra brasileira. De outro, os estoques certificados de arábica monitorados pela ICE, referência para o contrato negociado em Nova York, subiram para 528.028 sacas no corte de 4 de março, após ficarem em 510.151 sacas no início do mês.

Esse aumento não resolve sozinho a questão global de oferta, mas ajuda a aliviar a percepção de aperto imediato. Em mercados futuros, a expectativa pesa tanto quanto o volume físico disponível: quando o investidor enxerga mais café chegando ao sistema de entrega da bolsa, a necessidade de pagar um prêmio elevado diminui.

Clima mais favorável tirou pressão do mercado

A melhora do clima no Brasil ajuda a explicar por que o mercado passou a revisar parte do pessimismo recente. Em fevereiro, o Inmet registrou chuva acima da média em Minas Gerais. Antes disso, o próprio instituto já havia indicado que a reposição de umidade no sul de Minas favorecia cultivos perenes, como o café.

Relatórios privados também apontaram acumulados relevantes nas áreas cafeeiras. Em análise publicada em 5 de março, a DTN destacou que Minas Gerais, principal estado produtor de arábica do Brasil, recebeu entre 400 e 600 milímetros de chuva do fim de dezembro ao fim de fevereiro. Para o mercado, esse padrão reduz o risco de perdas mais severas na formação da safra.

Safra recorde da Conab reforça a leitura baixista

Além do clima, pesa a perspectiva oficial para a produção brasileira. Na primeira estimativa para 2026, a Conab projetou uma safra de 66,2 milhões de sacas, alta de 17,1% sobre 2025. No arábica, a previsão é de 44,1 milhões de sacas, avanço de 23,2%.

Esse número ganhou peso porque veio depois de um período em que o mercado operava muito sensível a qualquer notícia sobre seca, calor ou quebra de produção. Quando a principal estimativa oficial do país aponta recuperação forte, os fundos e operadores passam a testar preços mais baixos.

Onde estão as cotações agora

O arábica em Nova York chegou a operar pouco acima de US$ 2,80 por libra-peso, perto dos menores níveis desde julho de 2025, segundo dados acompanhados por plataformas de mercado e relatórios setoriais. A Organização Internacional do Café também já vinha captando essa virada de humor: no relatório de janeiro de 2026, a OIC informou que o preço composto da entidade caiu para 296,89 centavos de dólar por libra, com recuo de 2,6% no mês, e atribuiu a fraqueza do fim de janeiro às chuvas mais fortes em Minas Gerais.

Em outras palavras, a queda atual não surgiu do nada. Ela é parte de um ajuste que começou quando o mercado deixou de precificar apenas risco climático e passou a incorporar sinais mais claros de recomposição da oferta.

Por que isso importa para produtor, exportador e consumidor

Para o produtor, a baixa em Nova York tende a reduzir o espaço para novas altas no preço externo justamente em um momento de atenção com a comercialização da safra. Para exportadores e tradings, a leitura de oferta mais folgada pode mudar estratégias de hedge e de venda futura.

Para o consumidor, o efeito é mais lento. Mesmo quando a matéria-prima cede no mercado internacional, o repasse ao varejo não é automático, porque o preço final do café embalado depende também de frete, torrefação, embalagem, câmbio e margem da indústria e do comércio.

O que o mercado vai monitorar daqui para frente

Os próximos pregões devem continuar sensíveis a três fatores:

  • chuva e temperatura nas principais áreas de arábica do Brasil, sobretudo em Minas Gerais;

  • ritmo de entrada de café nos estoques certificados da ICE e no pipeline de classificação;

  • confirmação ou revisão da safra brasileira projetada pela Conab ao longo dos próximos levantamentos.

Se o clima seguir colaborando e os estoques continuarem subindo, a pressão baixista pode se prolongar. Se houver nova quebra no padrão de chuva ou piora relevante nas lavouras, o mercado pode voltar a embutir prêmio de risco. Por ora, porém, o sinal dominante é de alívio na oferta — e isso explica a forte queda do café em Nova York.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.