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Café com cafeína: estudo liga 2–3 xícaras a menos demência

Café com cafeína: estudo liga 2–3 xícaras a menos demência
Skylar Kang - Pexels

Estudo no JAMA acompanhou 131.821 pessoas por até 43 anos e encontrou associação de 18% menor risco; dados não provam causa e efeito.

Atualizado em 13 de fevereiro de 2026 às 12:45

O consumo moderado de café com cafeína, na faixa de 2 a 3 xícaras por dia, foi associado a menor risco de demência em um estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), que acompanhou 131.821 homens e mulheres nos Estados Unidos por até 43 anos, com análises que buscaram controlar fatores como idade, tabagismo e doenças metabólicas.

O que a pesquisa avaliou

O trabalho analisou participantes de duas coortes prospectivas de grande porte: o Nurses’ Health Study, composto por mulheres, e o Health Professionals Follow-up Study, com homens. Ao longo do tempo, os voluntários respondiam questionários alimentares repetidamente, em intervalos de dois a quatro anos, o que ajuda a reduzir distorções de uma fotografia única da dieta.

Para evitar que diagnósticos prévios contaminassem os resultados, os pesquisadores excluíram pessoas que já tinham câncer, doença de Parkinson ou demência no início do acompanhamento.

Os números: casos de demência ao longo do tempo

No período observado, 11.033 participantes desenvolveram demência. Ao comparar os extremos de consumo de café com cafeína, os autores encontraram uma diferença importante na taxa de novos diagnósticos.

Entre os que bebiam pouco, foram registrados 330 casos de demência a cada 100 mil pessoas acompanhadas por ano. Já entre os maiores consumidores, a taxa foi de 141 casos por 100 mil pessoas por ano. Essa forma de cálculo (pessoas-ano) padroniza o risco ao longo de décadas de acompanhamento.

Mesmo após ajustes estatísticos para variáveis que influenciam o risco, como atividade física, qualidade da dieta, índice de massa corporal, hipertensão e diabetes, a associação permaneceu. Na análise ajustada, os maiores consumidores de café com cafeína apresentaram 18% menor risco de desenvolver demência ao longo da vida.

Por que “2 a 3 xícaras” chamou atenção

Um ponto central do estudo foi o desenho em “curva”: o menor risco apareceu em torno de 2 a 3 xícaras diárias, o que os autores aproximam de cerca de 300 mg de cafeína. A partir daí, quantidades maiores não mostraram um benefício adicional claro.

Especialistas ouvidos no contexto do estudo consideram o padrão biologicamente plausível. A explicação sugerida é que substâncias podem ter um ponto de saturação: doses moderadas podem favorecer processos anti-inflamatórios ou metabólicos, enquanto volumes mais altos podem introduzir efeitos que atrapalham, como pior qualidade de sono e diluir ganhos potenciais.

Do ponto de vista biológico, a cafeína atua como antagonista de receptores de adenosina no cérebro e pode modular vias inflamatórias e metabólicas relacionadas à neurodegeneração. Ainda assim, o estudo não permite atribuir o resultado apenas à cafeína, já que café e chá também reúnem polifenóis, antioxidantes e outros compostos bioativos.

Chá seguiu padrão semelhante; descafeinado não

O trabalho observou um padrão parecido para o chá, também associado a menor risco. Já o café descafeinado não apresentou uma associação consistente com redução de demência, o que reforça a hipótese, ainda não comprovada, de que a cafeína possa ter papel relevante no fenômeno observado.

Limites do estudo: associação não é prova de prevenção

Apesar do tamanho da amostra e da duração do acompanhamento, o desenho é observacional: ele identifica correlações, mas não demonstra causa e efeito. Especialistas destacam que medições repetidas ao longo de décadas são um ponto forte, porém insuficiente para afirmar que “café previne Alzheimer” ou outras formas de demência.

Entre as limitações discutidas está a chamada causalidade reversa. Mudanças cerebrais relacionadas à demência podem começar muitos anos antes do diagnóstico clínico e, nesse período, a pessoa pode alterar hábitos, inclusive reduzir o consumo de café, sem saber que está em um processo pré-clínico. Além disso, mesmo com ajustes, fatores de confusão residuais podem persistir, como diferenças de perfil socioeconômico, engajamento cognitivo e outros comportamentos de saúde.

Outro cuidado é a generalização: a amostra é formada, em grande parte, por profissionais de saúde norte-americanos, com alto nível educacional e maior acesso a serviços médicos, o que pode não representar outras populações.

Efeito na cognição: mudança pequena, mas mensurável

Além do diagnóstico de demência, os autores analisaram desempenho cognitivo em parte das participantes: mulheres com mais de 70 anos que realizaram testes neuropsicológicos por telefone ao longo do seguimento. O instrumento principal foi o Telephone Interview for Cognitive Status (TICS), escala padronizada de 0 a 41 pontos, que avalia memória, atenção e orientação.

Nesse grupo, as mulheres com maior consumo de café com cafeína tiveram, em média, 0,11 ponto a mais do que as de menor consumo. A diferença é modesta: a queda anual média esperada nesse teste é de cerca de 0,18 ponto, o que coloca o ganho observado em uma magnitude aproximada de pouco mais de meio ano de envelhecimento cognitivo, algo que tende a não ser percebido de forma clara no dia a dia individual.

O que fazer com a informação

Os dados reforçam uma hipótese consistente: para a maioria das pessoas, o consumo moderado de café com cafeína parece seguro e pode se associar a menor risco de demência. Mas isso não equivale a uma recomendação de “beber café para prevenir” a doença.

Para reduzir risco de declínio cognitivo, continuam valendo as estratégias com evidências mais consolidadas: controlar pressão arterial e diabetes, praticar atividade física, manter estímulo intelectual, dormir bem e cultivar interação social. O novo estudo entra como mais uma peça em um conjunto de evidências, e não como conclusão definitiva.

Autor

Advogada, apaixonada por livros e séries. Também atuo como editora de conteúdos de variedades, unindo informação, criatividade e comunicação.