O café de todo dia pode estar ligado a uma velhice mais saudável — ao menos para mulheres de meia-idade, segundo um estudo apresentado em 2025 no congresso da American Society for Nutrition. A análise acompanhou quase 50 mil participantes por três décadas e encontrou associação entre consumo moderado de café com cafeína e maior chance de chegar aos 70 anos com boa saúde física, mental e cognitiva.
O que o estudo encontrou
Os dados apresentados pela American Society for Nutrition vieram do Nurses’ Health Study, uma das mais conhecidas coortes de longo prazo dos Estados Unidos. Foram analisadas 47.513 mulheres, acompanhadas por cerca de 30 anos.
Nesse grupo, 3.706 participantes preencheram os critérios de “envelhecimento saudável”. Na prática, isso significava chegar aos 70 anos ou mais sem 11 doenças crônicas importantes, mantendo boa função física, saúde mental preservada e sem comprometimento cognitivo relevante nem queixas importantes de memória.
Segundo a apresentação, as mulheres que consumiam café com cafeína na meia-idade tiveram maior probabilidade de se enquadrar nesse desfecho. Entre as chamadas “envelhecedoras saudáveis”, cada xícara adicional por dia foi associada a um aumento de 2% a 5% nessa chance, até o equivalente a cerca de cinco xícaras pequenas por dia.
Por que isso importa
O achado chama atenção porque o café faz parte da rotina de milhões de brasileiros. Dados da ABIC indicam que o Brasil segue como o segundo maior consumidor do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Ou seja: quando um estudo sugere possível impacto da bebida no envelhecimento, o tema tem efeito direto sobre hábitos muito comuns no país.
Mas é importante separar associação de certeza. O trabalho sugere que o café pode fazer parte de um padrão de vida mais favorável ao envelhecimento, porém não prova que a bebida, sozinha, cause esse resultado. As próprias pesquisadoras destacaram que dieta de qualidade, atividade física e não fumar pesam mais no desfecho final.
Nem toda bebida com cafeína teve o mesmo resultado
Um dos pontos mais relevantes da pesquisa é que o efeito observado apareceu com o café com cafeína, e não de forma clara com chá ou café descafeinado. Já o consumo maior de cola foi ligado a uma chance menor de envelhecimento saudável.
Isso reforça uma leitura importante: o possível benefício não parece estar ligado apenas à cafeína isolada. A hipótese dos pesquisadores é que compostos bioativos do café, como polifenóis e ácidos clorogênicos, possam ter participação nessa relação. Ainda assim, essa explicação biológica segue em investigação.
O que dá para concluir — e o que ainda não dá
O estudo é relevante pelo tamanho da amostra e pelo longo período de acompanhamento, mas tem limites. Ele foi apresentado em congresso científico em 2 de junho de 2025 e, segundo a cobertura da TIME, ainda não havia sido publicado com revisão por pares naquele momento. Isso significa que os resultados devem ser lidos com interesse, mas também com cautela.
Além disso, a pesquisa foi feita com mulheres e analisou especialmente o consumo na meia-idade. Portanto, não é correto concluir automaticamente que o mesmo efeito vale para homens, pessoas mais jovens, idosos que passaram a beber café agora ou qualquer pessoa com doenças que exigem restrição de cafeína.
Quanto café é considerado moderado
Na prática, o consumo associado ao melhor resultado ficou em uma faixa moderada. Em reportagens sobre o estudo, as pesquisadoras destacaram sobretudo algo em torno de 2 a 4 xícaras por dia, dentro de um padrão compatível com hábitos já existentes.
A FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, informa que para a maioria dos adultos saudáveis até 400 mg de cafeína por dia não costuma estar associado a efeitos negativos. Esse limite, porém, não serve igualmente para todo mundo: grávidas, pessoas com arritmia, ansiedade, insônia, refluxo ou sensibilidade à cafeína podem precisar de orientação individual.
O que o leitor pode fazer com essa informação
Para quem já toma café e se sente bem com a bebida, o estudo traz um sinal tranquilizador: o hábito, em quantidades moderadas, pode se encaixar em um estilo de vida saudável. Mas ele não autoriza exagero nem substitui cuidados básicos que têm impacto mais comprovado sobre a velhice.
Manter alimentação equilibrada;
praticar atividade física com regularidade;
não fumar;
controlar pressão, glicemia e colesterol;
ajustar o consumo de café se houver sintomas como palpitação, tremor ou piora do sono.
Em resumo, o café aparece na pesquisa como um possível aliado — não como fórmula mágica. A melhor leitura do estudo é esta: para parte das mulheres, um hábito simples e comum pode estar ligado a um envelhecimento melhor, desde que venha acompanhado do restante do pacote de saúde.