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Cachorros também sonham: o que a ciência já sabe sobre isso

Cachorros também sonham: o que a ciência já sabe sobre isso
Laura Furtado

Movimentos durante o sono, fases semelhantes às humanas e padrões cerebrais indicam que os cães podem reviver experiências do dia a dia enquanto dormem.

Atualizado em 13 de março de 2026 às 09:00

Quem convive com cachorro já viu a cena: patas se mexendo, respiração alterada, pequenos sons e até um leve abanar de rabo enquanto o animal dorme. A boa notícia para os tutores é que isso não costuma ser estranho. O que a ciência observa há anos é que os cães passam por fases de sono parecidas com as humanas, incluindo o sono REM, associado aos sonhos.

Por que os cientistas dizem que cães sonham

Os cães têm ciclos de sono com diferentes estágios, entre eles o REM, sigla em inglês para “movimento rápido dos olhos”. Em humanos, essa é a fase mais ligada aos sonhos. Em cães, pesquisadores e veterinários observam sinais compatíveis com esse processo, como contrações musculares leves, tremores nas patas, mudanças na respiração e vocalizações durante o descanso.

Isso não significa que seja possível saber exatamente “o que” o cachorro está sonhando. Mas o conjunto de evidências indica que o cérebro do animal permanece ativo durante o sono e pode processar memórias e experiências recentes, algo semelhante ao que ocorre com as pessoas.

O que pode explicar os movimentos durante o sono

Mexer as patas, emitir pequenos latidos abafados ou mudar o ritmo da respiração enquanto dorme é, em muitos casos, um comportamento esperado. Esses sinais costumam aparecer justamente quando o animal entra em fases mais profundas do sono.

Na prática, muitos especialistas entendem que o cachorro pode estar “revivendo” estímulos do dia, como uma brincadeira, um passeio, um encontro com outro animal ou situações rotineiras da casa. É por isso que alguns movimentos parecem imitar corrida, reação a sons ou excitação.

Filhotes e cães idosos podem sonhar mais

Há uma percepção recorrente na medicina veterinária de que filhotes e cães idosos tendem a apresentar mais movimentos visíveis durante o sono. Uma das explicações é que filhotes processam grande volume de informações novas, enquanto cães mais velhos podem ter alterações naturais na regulação do sono e no controle muscular durante determinadas fases.

O porte do animal também pode influenciar. Cães pequenos costumam ter ciclos de sono mais curtos e podem entrar em REM com mais frequência. Já cães maiores tendem a permanecer mais tempo em cada ciclo. Isso ajuda a explicar por que alguns parecem sonhar várias vezes em uma mesma soneca.

Quando o tutor deve se preocupar

Na maioria das vezes, sonhar não é sinal de problema. O cuidado começa quando o comportamento foge muito do padrão habitual do animal ou vem acompanhado de outros sintomas. Há situações em que movimentos durante o sono podem ser confundidos com desconforto, crise convulsiva ou dor.

  • episódios muito intensos e repetidos, com rigidez corporal marcada;

  • dificuldade para acordar o animal após o evento;

  • desorientação prolongada ao despertar;

  • salivação excessiva, perda de urina ou outros sinais incomuns;

  • mudança repentina no padrão de sono e no comportamento diurno.

Se isso acontecer, o mais indicado é observar a frequência, registrar em vídeo se possível e procurar orientação de um médico-veterinário. O vídeo pode ajudar bastante na avaliação clínica.

É melhor acordar o cachorro no meio do sonho?

Em geral, não. Se o animal está apenas sonhando, o mais seguro é deixá-lo descansar. Acordá-lo de forma brusca pode causar susto e reação defensiva involuntária, especialmente se ele estiver em sono profundo.

Se for necessário interromper o sono por algum motivo, a recomendação prática é chamar pelo nome em voz baixa ou fazer um ruído leve à distância, sem tocar de repente no corpo do animal.

O que isso ensina sobre o bem-estar dos cães

Entender que cachorros também podem sonhar ajuda o tutor a olhar o sono como parte importante da saúde. Descanso de qualidade está ligado a aprendizado, memória, regulação do estresse e recuperação física.

Na rotina, isso reforça medidas simples de cuidado:

  • manter um local confortável e silencioso para dormir;

  • oferecer rotina previsível, com horários mais estáveis;

  • garantir passeios, brincadeiras e enriquecimento ambiental;

  • evitar excessos de estímulo pouco antes de dormir, quando isso deixa o animal agitado;

  • buscar avaliação veterinária se houver mudança importante no sono.

O que já dá para concluir

A ciência ainda não consegue “ver” o conteúdo exato dos sonhos de um cachorro, mas as evidências disponíveis apontam que eles, sim, sonham. Para quem vive com um cão, isso ajuda a interpretar melhor cenas comuns do dia a dia e também a separar o que parece normal do que merece atenção médica.

Se o animal dorme, se mexe um pouco e volta a repousar normalmente, a tendência é que esteja apenas passando por uma fase natural do sono. Em vez de preocupação imediata, o mais comum é ser só mais um sinal de que o cérebro dele continua ativo mesmo em descanso.

Autor

Biólogo e Médico Veterinário, com atuação voltada à saúde e bem-estar animal. Possui interesse nas áreas de clínica médica de pequenos animais.