O Banco Central (BC) segue sem identificar, até o momento, indícios de irregularidades ou falhas graves atribuíveis ao ex-presidente Roberto Campos Neto no polêmico caso do Banco Master. A sindicância interna, aberta em novembro de 2025 logo após a liquidação extrajudicial da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro, continua em andamento sob sigilo, mas fontes internas da autarquia reforçam a percepção de que a gestão anterior atuou dentro dos parâmetros regulatórios disponíveis.
Um documento chave, enviado pelo próprio Banco Master ao BC em novembro de 2024 — ainda sob o comando de Campos Neto —, é apontado como uma das principais evidências em defesa do ex-presidente. No texto, o banco se comprometeu formalmente a adotar medidas corretivas de governança e saneamento financeiro após receber um ultimato da autoridade monetária. A estratégia adotada na época teria sido conceder uma "última chance" para reestruturação, evitando intervenção imediata com expectativa de solução de mercado (como a tentativa de venda de ativos "bons" separada dos problemáticos).
Campos Neto deixou a presidência do BC em 31 de dezembro de 2024, e a liquidação do Master só ocorreu em novembro de 2025, já na gestão de Gabriel Galípolo. Reportagens recentes, como as publicadas pelo Estadão, indicam que o ex-presidente tinha conhecimento dos problemas de liquidez desde pelo menos 2023/2024 e teria atuado em ao menos duas ocasiões para postergar medidas mais drásticas, priorizando uma resolução menos custosa ao sistema financeiro e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O rombo estimado já supera R$ 50 bilhões, majoritariamente coberto pelo FGC.
Apesar da avaliação técnica preliminar favorável a Campos Neto dentro do BC, o caso ganhou forte contorno político. O governo federal e o PT intensificaram críticas à gestão anterior. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o Master como um "abacaxi" herdado por Galípolo, afirmando que não houve diálogo adequado entre Fazenda e BC durante o período de Campos Neto e defendendo que as investigações sigilosas sigam até o fim, conforme orientação do presidente Lula.
O PT também articula para que Campos Neto preste depoimento na CPI do INSS, onde o caso Master é vinculado à chamada "Farra do INSS" — supostas irregularidades em investimentos previdenciários. Um requerimento do deputado Rogério Correia (PT-MG), apresentado ainda em novembro de 2025, argumenta que as ações (ou omissões) de Campos Neto em relação aos alertas sobre investimentos insustentáveis do Master podem ter contribuído para a manutenção do esquema.
A pressão ocorre em meio a revelações sobre conexões políticas com o banco, incluindo contratos milionários firmados por escritórios ligados a figuras como o filho do ex-ministro Ricardo Lewandowski e o ex-ministro Guido Mantega — fatos que o governo busca afastar de si próprio.
No Congresso, a instalação de uma CPI exclusiva do Banco Master enfrenta dificuldades: a Câmara acumula 15 requerimentos de CPIs pendentes, e analistas avaliam baixa probabilidade de avanço. Já o Senado criou um grupo de trabalho na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) para analisar o tema, com planos de ouvir Vorcaro, Galípolo e o próprio Campos Neto.
A sindicância interna do BC, conduzida pela corregedoria, também resultou no afastamento de chefes do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), mas sem conclusões finais sobre responsabilidades individuais. O foco permanece em avaliar se houve demora injustificada na identificação de riscos e na decretação da liquidação.
O caso continua a expor tensões entre visões técnicas de supervisão bancária e disputas políticas, em um dos maiores escândalos financeiros recentes do país. O BC afirma que a apuração segue "com rigor" e que eventuais falhas sistêmicas serão corrigidas para fortalecer a regulação.