A aquicultura brasileira entrou em um novo patamar. Dados mais recentes do IBGE mostram que o valor da produção aquícola chegou a R$ 11,7 bilhões em 2024, alta de 15,4%. No mesmo levantamento, a piscicultura atingiu 724,9 mil toneladas e a produção de camarão em cativeiro, 146,8 mil toneladas, ambos em nível recorde.
Por que o avanço importa agora
O crescimento chama atenção porque ocorre em ritmo superior ao dos principais produtos de origem animal medidos na mesma pesquisa. Segundo o IBGE, enquanto a aquicultura avançou 15,4% em valor em 2024, os demais produtos de origem animal pesquisados cresceram 8,2%. Em outras palavras, o pescado cultivado ainda está atrás de cadeias como bovinos, frango e leite em escala, mas vem ganhando espaço mais rapidamente.
Isso tem efeito direto sobre renda, investimento e diversificação da oferta de proteína no país. Na prática, significa uma cadeia mais relevante para produtores rurais, fábricas de ração, frigoríficos, transporte refrigerado, varejo e exportação.
Tilápia lidera a expansão; camarão reforça peso do Nordeste
O principal motor desse avanço é a tilápia. De acordo com o IBGE, a espécie respondeu por 68,9% de toda a produção de peixes cultivados em 2024, com 499,4 mil toneladas, alta de 12,8%. O Paraná concentrou 38,2% da produção nacional de tilápia, o que ajuda a explicar a força do Sul no setor.
Já o camarão cultivado segue muito concentrado no Nordeste. O IBGE aponta que 99,7% da produção brasileira veio da região, com destaque para Ceará e Rio Grande do Norte. Esse desenho mostra como a aquicultura cresce de forma diferente conforme a espécie: peixes de cultivo com base forte no Sul e Sudeste; camarão, com liderança nordestina.
Exportações aceleram em 2025
Além do mercado interno, a cadeia ganhou tração nas vendas externas. No primeiro semestre de 2025, as exportações da piscicultura brasileira somaram US$ 35,9 milhões e 8.029 toneladas, altas de 52% em faturamento e 49% em volume sobre o mesmo período de 2024, segundo informativo da Embrapa Pesca e Aquicultura. A tilápia respondeu por 95% do total exportado no trimestre analisado, e os Estados Unidos absorveram 89% do embarque no semestre.
Esse movimento é importante porque mostra uma cadeia menos dependente apenas do consumo doméstico. Também sugere maior padronização industrial, avanço sanitário e oferta de produtos com maior valor agregado, como filés frescos e congelados.
Águas da União e política pública entram no radar
Outro sinal de expansão veio das áreas de cultivo em reservatórios e outras águas de domínio federal. Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, a produção aquícola em Águas da União cresceu 20% em 2024, para 148.564,71 toneladas, com Valor Bruto da Produção de R$ 1,26 bilhão. O ministério também informou que a versão final do Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável da Aquicultura está prevista para março de 2026.
Para o setor, isso importa por três razões práticas:
segurança jurídica para novos projetos e ampliação de áreas de cultivo;
mais previsibilidade para investimento em tanques-rede, processamento e logística;
maior capacidade de planejamento para crédito, licenciamento e expansão regional.
O que muda na cadeia de proteínas
A aquicultura não substitui sozinha as proteínas tradicionais, mas amplia o cardápio produtivo do agronegócio brasileiro. Com crescimento mais veloz, ganho de escala da tilápia, força regional do camarão e exportações em alta, o pescado cultivado se consolida como uma frente relevante de oferta de proteína animal.
Há, porém, desafios claros. O próprio avanço do setor depende de custo de ração, energia, crédito, processamento, sanidade, regularização das áreas de cultivo e abertura de mercados. O cenário atual, sustentado por números do IBGE, da Embrapa e do Ministério da Pesca e Aquicultura, indica que a atividade deixou de ser um nicho e passou a ocupar um espaço mais estratégico na cadeia de proteínas no Brasil.