Neve sempre foi parte do imaginário dos esportes de inverno, mas, em várias sedes, ela deixou de ser um recurso garantido pela natureza. Em Milão-Cortina, na Itália, a paisagem das provas ao ar livre depende majoritariamente de uma infraestrutura industrial: canhões, reservatórios de água em altitude e uma operação contínua para manter as pistas em condições seguras.
Nas Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina, cerca de 85% da neve utilizada nas competições é artificial. O planejamento envolve a produção de aproximadamente 2,4 milhões de metros cúbicos de neve fabricada, em um processo que consome 946 milhões de litros de água.
Como a neve artificial é produzida nas montanhas
O sistema começa com o bombeamento de água para reservatórios construídos em áreas de montanha. A partir daí, a água é pulverizada por canhões e, sob temperaturas adequadas, transforma-se em cristais que se acumulam e são compactados para formar a base das pistas.
Para sustentar as provas ao ar livre, foram instalados mais de 125 canhões em localidades como Cortina d’Ampezzo, Bormio e Livigno. O volume total de água empregado na operação é frequentemente traduzido por comparações para dimensionar a escala: 946 milhões de litros equivalem a cerca de um terço do estádio do Maracanã.
O que mudou no clima e por que a neve natural falha
A ampliação do uso de neve artificial está ligada ao aquecimento global e ao encurtamento dos invernos. Em regiões tradicionalmente associadas à neve abundante, como os Alpes, a janela de dias com temperaturas abaixo de zero vem diminuindo, além de ocorrerem oscilações mais frequentes em torno do ponto de congelamento.
Em Cortina d’Ampezzo, as temperaturas médias de fevereiro subiram 3,6 °C desde 1956, quando a cidade sediou os Jogos pela última vez. Na década seguinte àquela edição, eram registrados em média 214 dias por ano abaixo de zero; esse número passou para cerca de 173.
A redução também aparece na própria camada de neve: a profundidade média em fevereiro diminuiu cerca de 15 centímetros desde os anos 1970. A consequência é direta para eventos esportivos que dependem de um frio consistente durante semanas.
Limites técnicos: quando nem a máquina resolve totalmente
A tecnologia de fabricação de neve não funciona em qualquer condição. Ela exige períodos prolongados de temperaturas negativas para fixar uma cobertura estável. Quando o termômetro fica próximo de zero, cresce o risco de chuva sobre as pistas e de formação irregular da camada, com trechos mais duros e escorregadios.
Além disso, manter a produção em ritmo contínuo aumenta a demanda por água e energia, o que pressiona recursos locais em áreas de montanha já sensíveis a mudanças ambientais.
Impactos no esporte: pistas mais duras e maior risco de lesões
A neve produzida por máquinas tende a ser mais densa e conter menos ar do que a neve natural. Na prática, isso altera a forma como o piso absorve impactos: quedas podem se tornar mais agressivas, elevando o risco de lesões para atletas.
Outro efeito é o comportamento da pista ao longo do tempo. Por compactar com mais facilidade, a neve artificial pode retardar o derretimento na primavera, interferindo no ciclo natural da água e nas condições do solo e da vegetação no entorno.
Um padrão que se repetiu em edições recentes
Milão-Cortina não é um caso isolado. Em Sóchi 2014, na Rússia, cerca de 80% da neve foi fabricada. Em PyeongChang 2018, na Coreia do Sul, o índice chegou a 98%. Em Pequim 2022, na China, 100% das provas ocorreram sobre neve artificial.
O avanço desse modelo mostra como a organização dos Jogos passou a incorporar a produção de neve como parte estrutural do evento, e não apenas como plano de contingência.
O que os estudos indicam sobre sedes futuras
As exigências climáticas para receber as competições tendem a se tornar mais restritivas. Um estudo que avaliou 93 localidades concluiu que, até 2050, apenas quatro seriam capazes de realizar as provas sem qualquer uso de neve artificial: Niseko, no Japão; Terskol, na Rússia; e Val d’Isère e Courchevel, na França.
A questão se torna ainda mais sensível por causa dos Jogos Paralímpicos de Inverno, disputados algumas semanas depois das Olimpíadas e, em geral, em março. Desde 1992, a cidade candidata precisa sediar os dois eventos, o que prolonga a necessidade de frio consistente.
Consequências fora das arenas: água, rios e economias locais
A discussão sobre neve não se limita ao esporte. A cobertura de neve atua como um reservatório natural, liberando água aos poucos ao longo do ano. Com menos acúmulo no inverno, rios podem ter menor vazão na primavera e no verão, enquanto reservatórios enfrentam pressão adicional em períodos de seca.
A diminuição da neve afeta também a agricultura, a geração de energia hidrelétrica e o abastecimento de cidades que dependem do degelo. Em ecossistemas adaptados ao frio, mudanças rápidas reduzem a estabilidade ambiental e aumentam a vulnerabilidade de espécies e de atividades econômicas ligadas ao turismo de montanha.
Respostas em debate no movimento olímpico
O Comitê Olímpico Internacional afirma que a segurança dos atletas é a prioridade na preparação das pistas e declara a intenção de tornar os Jogos futuros “climaticamente positivos” a partir de 2030. Entre as alternativas discutidas estão ajustes de calendário, concentração das provas em fevereiro e modelos com menos sedes, escolhidas por maior confiabilidade climática.
Enquanto essas soluções ganham forma, a proporção de neve artificial em Milão-Cortina funciona como um retrato concreto de uma transformação maior: o inverno, em várias regiões, está deixando de ser previsível — e isso redefine, ao mesmo tempo, a logística dos Jogos e a relação com a água nas montanhas.