Dois em cada três brasileiros afirmam ter dívidas financeiras, segundo levantamento do Datafolha. O dado ajuda a dimensionar um problema que já aparece em outros indicadores da economia: crédito caro, contas básicas mais pesadas e orçamento familiar cada vez mais apertado. Para o leitor, a diferença central é esta: ter dívida não significa necessariamente estar inadimplente, mas mostra um país mais dependente de parcelamentos, empréstimos e uso contínuo do crédito.
O que a pesquisa mostra
O levantamento do Datafolha, divulgado em 19 de abril de 2026, aponta que 67% dos brasileiros dizem ter dívidas financeiras. Dentro desse grupo, 21% afirmam estar com dívidas atrasadas. A pesquisa ouviu 2.002 pessoas em 117 municípios, nos dias 8 e 9 de abril, com margem de erro de 2 pontos percentuais.
Entre quem está devendo, o cartão continua no centro da pressão sobre o orçamento. Segundo o levantamento, 25% dos entrevistados dizem recorrer ao crédito rotativo do cartão com algum grau de frequência — modalidade em que o consumidor paga apenas parte da fatura e empurra o restante para frente, normalmente com juros altos. Entre os tipos de dívida em atraso, aparecem com destaque o cartão parcelado, empréstimos em banco e carnês de lojas.
A pesquisa também separa as dívidas financeiras das contas do dia a dia. Nesse recorte, 28% dos brasileiros relataram atrasos em contas de consumo e serviços, como telefone, internet, luz e água. Isso amplia o tamanho do problema porque mostra que a dificuldade não está restrita a compras maiores ou financiamentos: ela já atinge despesas correntes da casa.
Por que isso importa agora
O dado do Datafolha não aparece isolado. A CNC, na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor referente a março de 2026, mostrou que 80,4% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida a vencer, o maior nível da série histórica da entidade. No mesmo mês, 29,6% relataram contas em atraso.
Já o Banco Central informou que o endividamento das famílias chegou a 49,7% da renda em 2025, enquanto o comprometimento de renda com dívidas ficou em 29,2%. No crédito livre para pessoas físicas, a taxa média de juros atingiu 62,0% ao ano em fevereiro de 2026. Em termos práticos, isso significa que uma dívida pequena pode crescer rápido quando entra no rotativo, no cheque especial ou em linhas menos baratas.
Inflação e custo de vida ajudam a explicar a pressão
Parte dessa piora está ligada ao encarecimento do custo de vida. O IBGE informou que o IPCA de março de 2026 ficou em 0,88%. Transportes e alimentação responderam por boa parte da alta, com aumentos puxados por combustíveis e alimentos consumidos no dia a dia.
Quando despesas básicas sobem, sobra menos espaço no orçamento para quitar parcelas já contratadas. O resultado costuma ser um ciclo conhecido do consumidor brasileiro: usa-se mais o cartão, parcela-se mais a compra, cresce a chance de atraso e, depois, o peso dos juros dificulta a saída.
Quem sente mais
Os dados mais recentes sugerem que o problema é espalhado, mas pesa de forma desigual. Na pesquisa da CNC de março, a inadimplência era mais alta entre as famílias de menor renda. Entre aquelas com renda de até 3 salários mínimos, 38,2% tinham dívidas em atraso. No grupo com renda acima de 10 salários mínimos, o percentual era de 14,7%.
Isso ajuda a entender por que o endividamento virou tema econômico e social ao mesmo tempo. Para quem ganha menos, atrasar conta de consumo ou parcela do cartão não é apenas um problema financeiro: pode significar restrição de crédito, dificuldade para contratar serviços e perda de margem para emergências.
O que pode acontecer a seguir
O governo federal já discute novas medidas para tentar reduzir o peso das dívidas das famílias. Segundo a Agência Brasil, o Ministério da Fazenda estuda alternativas como garantias para renegociação e até o uso do FGTS em formatos ainda em análise. Até agora, porém, não há medida final anunciada.
No curto prazo, o quadro ainda depende de três fatores principais:
juros ainda elevados no crédito ao consumidor;
inflação pressionando despesas básicas, como alimentação e transporte;
ritmo de renegociação das dívidas já em atraso.
O que o leitor precisa guardar
O número de “2 em cada 3 brasileiros” mostra um país em que a dívida deixou de ser exceção e virou parte da rotina financeira. A diferença decisiva é saber se ela está sob controle ou já entrou em atraso. No momento, os levantamentos de Datafolha, CNC e Banco Central apontam para a mesma direção: o crédito segue amplamente usado, mas a margem de segurança das famílias está menor.
Em outras palavras, não se trata só de um retrato estatístico. É um sinal de que, em 2026, o peso das parcelas, das contas básicas e dos juros continua moldando o consumo e a vida cotidiana de milhões de brasileiros.